Fusão confundida

Ana Iaria

Merger and Acquisition. O tradutor vê isto e não titubeia: Fusão e Aquisição. Mas como tudo em direito, não é o que parece.

Analisemos primeiro a definição de M&A dada pela Investopedia: “A general term used to refer to the consolidation of companies. A merger is a combination of two companies to form a new company, while an acquisition is the purchase of one company by another in which no new company is formed.”

http://www.investopedia.com/terms/m/mergersandacquisitions.asp

O Código Civil de 2002, artigo 1116 prescreve:

Art. 1.116. Na incorporação, uma ou várias sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações, devendo todas aprová-la, na forma estabelecida para os respectivos tipos.

Assim, se comparada com a definição da Investopedia, percebe-se que não se pode traduzir como fusão que, conforme o Código Civil, art. 1119, “A fusão determina a extinção das sociedades que se unem, para formar sociedade nova, que a elas sucederá nos direitos e obrigações.” Isto é o que em inglês se chama Consolidation.

Portanto, traduz-se como merger como incorporação. Uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, mas sua natureza jurídica permanece inalterada, cada uma com seus próprios direitos e obrigações.

Já na fusão (consolidation), ocorre a união de duas ou mais empresas extinguindo-se todas as pessoas jurídicas anteriores, dando lugar a uma nova pessoa jurídica. Esta assumirá todas as obrigações ativas e passivas das empresas fusionadas.

E a cisão? Uma empresa transfere toda ou somente uma parcela de seu patrimônio para um ou mais empresas, já existentes ou constituídas para tal fim. A empresa cindida em inglês será spin-off.

E ainda temos a transformação, que é a mudança de tipo de sociedade para outro. Por exemplo, a empresa deixa de ser limitada e passa ser anônima. Em inglês, conversion. Regida pelo artigo 1113 do Código Civil: “O ato de transformação independe de dissolução ou liquidação da sociedade, e obedecerá aos preceitos reguladores da constituição e inscrição próprios do tipo em que vai converter-se.”

Unpigeonholeable, ou hoje aprendi traduzindo…

Pricila Franz

Uma das coisas que mais me fascinam na profissão de tradutora é que todos os dias aprendemos algo novo. Embora alguns colegas afirmem que alguns textos, principalmente técnicos, são tediosos e repetitivos, com assuntos sem graça, discordo totalmente.

A cada dia sou surpreendida: seja por uma palavra que não conhecia (como, por exemplo, a palavra unpigeonholeable*, que eu nunca tinha visto na vida até que surgiu num material que traduzi sobre perfumes); ou por um texto informativo sobre os assuntos mais variados possíveis. Vou lendo, traduzindo e pensando: “Nossa, é mesmo?! Não sabia disso!”).

E sei que isso não acontece só comigo, pois tempos atrás surgiu até um tópico na comunidade de Tradutores e Intérpretes do Orkut (a famosa 50302) criado pela colega Carol Alfaro e intitulado: “Hoje aprendi traduzindo“. É uma pena que o Orkut ande às moscas e o Facebook não tenha a mesma dinâmica.

Por isso, gostaria de perguntar aos colegas que acompanham o Janela Tradutória: o que você aprendeu hoje? Aproveitem o espaço para comentários abaixo e contem para gente. 😉
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* Unpigeonholeable surgiu como adjetivo do rockstar Iggy Pop. Pode ser traduzido como incomparável ou irrotulável. Não tem qualquer relação com o buraco da pomba, viu?! XD

Aproveite melhor sua CAT tool

William Cassemiro

Toda CAT tool tem, ou deveria ter, diversos recursos par facilitar e acelerar o trabalho do tradutor. Os dois principais recursos que todos usamos são as memórias (TMs), que além de ajudarem com as repetições, também ajudam com os fuzzy matches, e os glossários (TBs), que ajudam a manter os termos adequados para cada tradução. Com relação a estes dois recursos, geralmente, não temos dúvidas e sabemos como usá-los razoavelmente bem.

Mas não seria interessante usar outros recursos dessas ferramentas que a maioria acha muito caras? Certamente, se você aprender a usar alguns destes recursos, sua produção aumentará razoavelmente, o que fará com que o fator custo seja visto com outros olhos.

Invista algum tempo para aprender a usar melhor sua CAT tool preferida. A minha, e da maioria do pessoal do Janelão, é o memoQ. Então, aqui vai uma dica de uso para um recurso do memoQ pouco conhecido da maioria dos tradutores com quem conversei: as AutoCorrect lists.

Em muitos documentos que traduzo, aparecem indicações como 1Q2011, 2S2013, 2H2019. Como a maioria de vocês já sabe, o “1Q” indica o primeiro trimestre do ano. O “2S” e também o “2H” indicam o segundo semestre do ano. Como são usados para diversos anos, não é viável criar uma entrada no TB para cada um, ou seja, registrar que 1Q2011 = primeiro semestre de 2011; 1Q2012 = primeiro semestre de 2012; 1Q2013… Uma boa opção é criar uma entrada na lista de autocorreção que permita agilizar a digitação quando estes termos aparecerem.

A primeira coisa a fazer, é analisar o que pode ser mantido ao traduzir este tipo de notação. No exemplo, toda vez que aparecer um “1Q”, a tradução será “primeiro trimestre de”, um “2Q”, será “segundo trimestre de”. Para “3Q” e “4Q” a ideia é a mesma. Quando surgir um “1S” ou “1H”, a tradução será “primeiro semestre de”, e um “2S” ou “2H” será traduzido como “segundo semestre de”.  Assim, fica fácil criar entradas na AutoCorrect list do memoQ para que você não precise digitar tudo isto sempre que aparecer uma informação neste formato.

Vamos lá:

Clique em Tools, Options. Em Default resources, selecione AutoCorrect lists. É o último ícone à direita:

Clique em Create new, na parte de baixo da janela e dê um nome para sua lista.

Depois de criar, clique em Edit. Será exibida esta janela:

No campo Replace, digite “1Q”. No campo With, digite “primeiro trimestre de” (ambos sem as aspas!) e clique em Add. Repita a operação para os outros itens (2Q, 3Q, 4Q, 1S, 1H, 2S e 2H).

Clique em OK e depois, na janela Options, selecione Portuguese e marque a regra criada. Clique em OK para fechar esta janela.

Pronto. Agora é só abrir um documento e digitar “1Q” para que imediatamente após você clicar na barra de espaço o memoQ substitua por “primeiro semestre de”.

Não facilita muito o trabalho de digitação? Este foi só um exemplo simples, certamente você já pensou em outras situações onde as AutoCorrect lists serão muito úteis.

Se você já usa este recurso no Word, uma boa notícia: no site da Val, ela ensina direitinho como fazer para importar sua lista de autocorreções do Word para o memoQ. Dê uma olhadinha aqui.

Se você tiver alguma dica de como usar outros recursos do memoQ ou de qualquer outra ferramenta, compartilhe com a gente.

Inté a próxima.

Você sabe o que é declutter – Final

William Cassemiro

Vamos continuar a eliminar a bagunça do desktop?

O primeiro post sobre o assunto você encontra aqui.

A figura abaixo mostra a disposição e conexões do hub USB, da placa de som e do leitor de CD/DVD externos, vistos por baixo. Observe o prendedor de cabos, à  esquerda da imagem, usado para evitar que o cabo USB, que vem do computador, fique pendurado:

Como sou destro, deixei a área esquerda do desktop com recursos que não preciso usar com frequência, liberando o espaço do lado direito para o uso do mouse/trackpad.  O computador, um Mac Mini, para ocupar menos espaço, também ficou no lado esquerdo. Como você pode ver nessa imagem, se você também tem problemas em arrumar um lugar para colocar os fones de ouvido e tê-los sempre à mão, é fácil resolver isso com um suporte para toalhas, fácil de achar e baratinho.

Esconder a fiação em cima da mesa foi outra preocupação. Como o computador fica ali em cima, vários fios precisam chegar até lá. Solução: um HD externo  que fica na posição vertical, cobrindo a entrada dos fios pelo tampo da mesa e uma espécie de caixa de madeira, fácil de fazer, sob medida para encaixar atrás do Mac Mini:

Como podem ver, um hub USB com 7 portas, fixado em cima da caixa que esconde a fiação facilita a conexão de dispositivos.

O som do Mac Mini não é ruim, ainda mais se pensarmos que ele é praticamente um laptop, mas para melhorar e também diminuir a quantidade de fios, uso um conjunto de caixas Edifier R18USB. Essas caixas têm controle de volume e mute no cabo, que ficou atrás dos monitores. Isto não é problema pois os controles são feitos também no teclado, um Microsoft Confort Curve, que logo será trocado por outro igual, mas wireless.  Em vez de mouse, uso um Magic Trackpad da Apple, além de ser muito prático, é wireless.

Bom, foi assim que ficou meu desktop declutterizado:

 

 

Está tudo acessível, o que elimina a preguiça que bate de vez em quando de pegar “aquele dicionário”, “aquela gramática”.

Estico o braço direito: Agenor Soares, Isa Mara e os Lufts me ajudam…

…estico o esquerdo: Celso Cunha e o Tio Bechara dão uma mãozinha.

Antes que me esqueça: sim, é para eliminar a bagunça. Mas não ouse chamar meus carrinhos de bagunça! Afinal, a parte lúdica ajuda a deixar o ar mais leve.

Inté a próxima.

Interpretar o intraduzível

Adriana Machado

O trabalho de interpretação costuma ser cercado de mitos. Eu acho que “causos” são a melhor arma para derrubar mitos. Não acredito em “segredos de cabine”. Mistério pra quê? Vamos lá.

Uma das mais tradicionais piadas sobre interpretação diz o seguinte:

To make a long story short...

A missionary goes to Africa to visit a community, a very old, primitive tribal community. He gives a long sermon. For half an hour he tells a long anecdote, and then the interpreter stands up. He speaks only four words and everyone laughs uproariously. The missionary is puzzled. How is it possible that a story half an hour long can be translated in four words. What kind of amazing language is this? Puzzled, he says to the interpreter, “You have done a miracle. You have spoken only four words. I don’t know what you said, but how can you translate my story, which was so long, into only four words?”

The interpreter says, “Story too long, so I say, ‘He says joke — laugh!’ ”

O que aqui é contado como piada, acredito que seja na verdade uma estratégia para os intérpretes, principalmente na tradução simultânea. Fala-se sobre isso, em tom de piada e eu tinha a curiosidade de saber se alguém realmente usa a estratégia.

Aparentemente sim, como se vê no vídeo abaixo (em inglês), com conselhos de um professor de interpretação da universidade de Leeds (Obrigada Cecilia Mattos!):

Nunca tinha precisado lidar com isso… até hoje!

E não foi um palestrante contando uma piada ou fazendo uma gracinha para quebrar o gelo no início de uma apresentação, não! Cheguei no evento ciente que teria que interpretar uma rápida intervenção do comediante Marco Luque com seu personagem Silas Simplesmente, o taxista.

Uma das características do personagem é justamente inserir palavras em inglês, normalmente pronunciadas de forma engraçada, na sua fala. Considerei substituir por palavras em espanhol, mas sabia que não seria a mesma coisa.

Um detalhe Minha sorte era que havia apenas um único ser humano que iria ouvir a tradução para inglês e pensei: vou avisar que a graça do personagem é usar palavras em inglês e continuo traduzindo o conteúdo, paciência. Isso combinado com o parceiro de cabine, mandei bala.

Até que Silas Simplesmente simplesmente começou a fazer piadas usando nomes e sobrenomes de famosos. Assim:

Você quebra nozes e o Francisco Cuoco

Sua buzina faz bibi, a da Joana Fomm

Você na cama dá duas, Leonardo da Vinci

Você morre uma vez, a Alanis Morrissette

O seu é pequeno, o do Paulo Cesar Grande

São as que eu lembro, mas foram bem umas vinte, no mínimo.

Aí não tem jeito né? Tive que usar a estratégia da piada, dizer: “ele está fazendo piadas usando o sobrenome de pessoas famosas” e, glória das glórias, desligar o microfone e finalmente poder me acabar de rir alto. 😀

Ética

Ernesta Ganzo

A Denise Bottmann e o Danilo Nogueira escreveram algumas ponderações bem interessantes, (a leitura vale a pena), sobre a recente entrevista que o dono da Record, sr. Sergio Machado, prestou ao jornal Estado de São Paulo. Uma entrevista cuja leitura é dolorida para quem enxerga o livro não como um produto, mas como um amigo, um conforto, uma luz na escuridão que pode nos iluminar, alegrar, comover. É ainda mais dolorida para quem, (como o próprio entrevistado explica: “Só tem um motivo para uma pessoa não vender uma coisa: foi você que fez ou você tem uma relação especial com aquilo. Eu não tenho.”), está vendendo algo seu, uma parte de si, algo com o qual teve uma relação especial. Quebrou o encanto. O encanto de imaginar o editor como alguém que com afinco e dedicação procura nos proporcionar boas leituras. O encanto para com o editor amante dos bons livros e da literatura, esfregando na nossa cara uma triste realidade: a do editor preocupado tão somente com o lucro, do editor comerciante, vendedor.

Eu particularmente fiquei com sentimentos ambíguos, pois ainda que por um lado entenda perfeitamente que na sociedade hodierna tudo é movido pelo lucro, todos afinal querem é ganhar e ninguém faz mais nada pelo amor à arte, ainda que eu entenda isso, continuo, por outro lado, a ser uma inguaribile romantica, que se emociona quando se vê perante as belas obras que espíritos sensíveis conseguem produzir. E não falo tão somente do deleite que sinto em ler passagens de obras literárias não, falo também de pinturas, de música, de teatro, tudo o que o ser humano, ser sensível e criativo, consegue produzir. Assim como me emociona também um lindo por do sol e o sorriso puro de uma criança, o apego do nosso cachorrinho ou o de um gatinho “facendo le fusa” (ronronando).

E continuo achando também que triste seria se tudo se reduzisse ao dinheiro.  Continuo perseguindo o belo, pois é o belo que me traz felicidade, serenidade, paz, alegria, e medo, arrepio, insegurança, maravilha, incredulidade. O belo que me faz sentir. E assim posso viver. Viver e não tão somente acordar, trabalhar, me alimentar… mas viver… viver sentindo, me emocionando, seja qual for a emoção.

É inegável, já disse, que em geral ninguém mais faz algo pela gloria. Pode até fazer por pouco, o bastante para se sustentar, porque todos precisamos comer, se vestir, etc. e tal. Tem os que ainda ‘trabalhem’ por amor ao que fazem, mas em geral eles também precisam comer e se sustentar e, não adianta, por mais idealista que o artista seja, tem uma hora que a barriga fala mais alto. Ou tem outro trabalho que sustente a si e a sua arte ou se profissionaliza e entra na roda dos que acabam aceitando “popularizar” (leia-se vender mais) sua própria arte para poder viver.

Onde quero chegar com essa lábia toda? Onde é que o tradutor entra nessa conversa? Pois bem. O tradutor é um ser diferente. Tem a sorte de fazer o que gosta. Acredito eu que muitos dos que entraram para o mundo tradutório, de uma forma ou de outra, (excluindo aqui os que pousam por breves períodos, fazendo um bico aqui e acolá, mas que inevitavelmente – inevitavelmente, porque tradução não é para todos – são atraídos, ao longo do tempo, por outros rumos), gostam do que fazem. Gostam de pesquisar, de ler, de escrever, gostam da sua própria língua e de um texto bem escrito. São ávidos por conhecimento e quanto mais assuntos vierem para traduzir melhor. Tradutor é um ser interessante e interessado, afinal.

E ele também “popularizou” sua arte, sua predisposição pela pesquisa, pela escrita, se profissionalizou e vende um produto, sua tradução. Vende palavras. Palavras de outros, é verdade, mas que são suas também. Palavras que foram interpretadas, pensadas, traduzidas e dispostas de forma a transmitir a mensagem de outro à sua maneira. Os literários, os tradutores literários digo, vão querer me linchar (peço desculpa, mas a minha intenção não é ferir a sensibilidade de ninguém, tão somente de abrir um debate), de tanto horror que devem sentir quando alguém os compara a “meros” vendedores de palavras. E entendo perfeitamente. Pois, por mais que eu acredite que eles também estejam vendendo palavras, como já disse, sou uma inguaribile romantica e continuo achando (sinceramente) que para traduzir uma obra autoral precisa de algo a mais, precisa de uma sensibilidade e uma interação com o autor original da obra (feita através de leituras e pesquisas), precisa de tempos um pouco mais longos para conseguir dar às frases aquela entonação, aquele sabor que tanto nos emociona. Por mais que eu acredite em tudo isso, pelo andar da carruagem, pelo sistema que precisa continuar vendendo novos títulos com prazos apertados, sei que os tradutores literários também acabam tendo que trabalhar sob pressão, respeitando prazos desumanos para traduzir obras que, por vezes, de literário tem pouco ou nada. É o sistema. E o tradutor literário é que não escapa do sistema, porque ele também precisa comer. Eu não estou aqui me referindo ao professor ou literato que traduz “pelo amor à arte” (se é que isso ainda existe) um livro a cada sei lá quanto tempo. Este deve ter outro trabalho que o sustente, já disse isso também. Estou me referindo aos que sustentam seus filhos, pagam suas contas e custeiam tudo com o fruto do seu trabalho de tradução.

Mas chega de enrolação e vamos ao que interessa. A ética.

É ético alguém emprestar seu nome, vender a sua imagem, para que um produto venda mais? É o que fazem, por exemplo, os jogadores de futebol nas propagandas de tênis, induzir o eventual comprador do produto a acreditar que o produto é bom. Afinal se X usa aquele tênis (ele é campeão, não é?) então deve ser bom. Seria como se ele fosse um garantidor das qualidades do produto. Todos sabem que celebridade que faz propaganda está ganhando um cachê para fazer/dizer algo que induza o consumidor a comprar. Todos sabem que aquilo não passa de uma propaganda, mas no fundo fica a imagem lá do jogador campeão com o tênis no pé fazendo um belo de um gol. Muitos, menos afortunados, acreditam naquilo como fosse a verdade, associando o tênis ao sucesso. Enfim… não estou dizendo nada novo: vender a própria imagem para garantir que algo é bom não é ilícito. E no caso do Nelson Rodrigues (já disse que eu sou uma romântica), na dúvida, que nunca poderá ser sanada pois ele não está mais aqui para se defender, prefiro acreditar que de alguma forma ele estivesse pelo menos controlando (leia-se revisando o português, a entonação das frases, o intercalar dos períodos, etc.) o que ele estava se responsabilizando a assinar. Pode ser que não, provavelmente não, quase certo que não, mas para mim sempre vale o in dúbio pro réu.

O que mais me incomoda não é ele ter assinado traduções que nunca fez (contanto que ele tenha pelo menos revisado, e quem sabe reescrito passagens para dar algo seu na tradução – eu sei, sou romântica, é que não gosto de ver destruídos meus ídolos), assim como não me incomoda alguém trabalhar para lucrar, inclusive os editores, apesar de eu continuar romantizando-os (meu pai afinal era um editor, de uma editora pequena, é verdade, mas pur sempre uma editora – e pai da gente sempre é super herói, não é? Com seus defeitos, seus erros, mas super herói).

O que me incomoda não é só a falsidade ideológica (que ocorre com o registro falso na Biblioteca Nacional), pois afinal quem sou eu para julgar o quanto alguém está necessitado a ponto de se sujeitar a prática tão humilhante. Nelson Rodrigues pode até ter assinado traduções de outro, mas, neste caso, enxergo um hipossuficiente (dois aliás, Nelson Rodrigues e o verdadeiro autor da tradução) que se sujeita pela necessidade.

A editora, lado forte da relação, é que estaria usando da arte da propaganda sem avisar que propaganda era, por isso enganosa. Quer usar o nome de alguém renomado para vender mais, que seja. Peça-lhes para escrever uma prefacio e estampa lá na primeira página o nome dele: “Com a prefacio de Fulaninho”.

O que mais me incomoda mesmo, o que realmente me doeu é o preconceito. É alguém pensar, e devem ser muitos os que o fazem, que para lucrar, para ser negociante, comerciante, vendedor, não precisa ser ético. É o associar aos negócios uma “ética” que seria própria do comercio. Uma ‘forma mentis’ que permite tudo e que ainda se regozija quando consegue ludibriar os outros, achando aquilo um sinal de sucesso, motivo de gloria. Isso não é coisa de comerciante não, não é sinônimo de negociantes, vendedores. Tem nada a ver com eles, conosco, que também somos vendedores, se de um produto ou de um serviço tanto faz, sempre vendedores. É de pessoas de ética duvidosa, e só.

P.S. Só lamento que estamos aqui comentando o caso, falando de quem não está mais aqui para se defender ou justificar (mas que mesmo assim dá IBOPE, afinal é Nelson Rodrigues, não é?), fazendo o jogo da editora. The only thing worse than being talked about is not being talked about.

 

P.S. Desculpem pelo tratado, escrevi à noite e as palavras rolavam soltas 🙂

Tradução da beleza

Érika Lessa

Meninas, vamos falar de coisa boa? Vamos falar de Iogurteira coisas que nos fazem sentir melhor?

Quem me conhece mais de perto sabe que adoro maquiagem. Curto muito. Não sou escrava — daquelas que não vão comprar pão sem rímel e batom — mas percebo que, em algumas circunstâncias, estar “ajeitadinha” facilita. Não importa se é alguma ocasião de trabalho, uma festa, ou mesmo pra levantar o moral que anda meio acabrunhado: olhar para o espelho e gostar do que vê é uma delícia.

A natureza essa bandida nem sempre é muito legal com a gente, mas é possível contornar muitos de seus lapsos com pincel, corretivo e pó.

Ainda não tinha postado aqui por querer ter aquela sacada, aquele tema tradutório “uau!”, mas sempre tem quem me peça pra falar sobre isso. Então, por que não?

Não sou especialista, nem tenho paciência para testar tudo o que sai por aí e me dispor a escrever resenhas etc. Nem tenho competência para tal. Mas tem muita gente boa por aí fazendo isso, e pretendo dar o pontapé inicial na “transformação” de quem insiste em dizer que tem “duas mãos esquerdas”, mostrando o que sei, o que funciona para mim e onde busco informações e novidades. Dá pano pra manga, gola e bainha, né?

Vamos lá:

1. Maquiagem é treino.

Quanto mais você fizer, melhor conhecerá seu rosto, seus traços, o que fica bom ou não em você. Portanto, mãos à obra! Mas não vamos deixar pra treinar no dia daquele casamento loosho, neam? Passa primeiro aquele lápis puxadinho pra ir ao barzinho com o namorado, testa aquela mistura de sombras no aniversário de seu colega trabalho… Porque, se não der certo, basta tirar e pronto! Com o tempo, rola mais segurança e ousadia 😀

2. Você não precisa de todas as cores e pincéis disponíveis.

Quem já visitou blog de maquiagem, ou sites de empresas de cosméticos sabe que é de ficar tonta com tantas possibilidades. Mas você não precisa de todas aquelas cores, nem de todos aqueles pincéis, nem das melhores (e mais caras) marcas. Vamos com calma. Não adianta ter as ferramentas top de linha, se não tiver técnica e traquejo (assim como não adianta ter MemoQ, computador de última geração, se você nunca traduziu uma linha ;)). Portanto, não se afobe em jogar fora aquele kit de maquiagem paraguaio: ele pode ser bem útil nessa fase de “testes”.

3. Informe-se.

Veja o que o povo está fazendo por aí. Confira as novidades do mercado. Assine  blogs legais. “Ah, não tenho tempo!”. Tente outra desculpa, porque as blogueiras testam, dão seu parecer e você já vai certeira no que quer/precisa. Ou seja, acaba ganhando tempo. Se o quesito tempo é para a leitura dos blogs: seus problemas acabaram! Eles são ótimas companhias para salas de espera, engarrafamentos e afins.

Esses são alguns dos que gosto e acompanho:

  • http://www.2beauty.com.br/blog/ – Blog da Marina Smith. A moça é divertida, bem consciente da questão preço/qualidade e seus tutoriais são muito bonitos. Outra coisa que gosto muito: posts patrocinados são poucos e ela sempre avisa quando são — o que garante a imparcialidade sobre a qualidade dos produtos que testa e diz gostar ou não.
  • http://www.beautyblog.com.br/ – Blog da minha amiga Andrea Deds (oi, Deds :P) com algumas outras meninas. Elas testam diversos produtos de beleza (esmaltes, sombras, protetores etc.).
  • http://vogue.globo.com/diadebeaute/ – Também está dentro da lista de blogs de beleza (falando sobre tudo relacionado ao tema).

E aí? Pronta para começar?

Governo, o cliente que todos querem

Daniel Estill

“A prefeitura diz, por meio de nota, que jamais teve a intenção de contratar a ????? e que só o fez por decisão judicial. A empreiteira teria posto apenas quatro operários para varrer 15 km por mês. A prefeitura afirma que “sabia que os preços apresentados na proposta licitatória eram insuficientes para a quantidade de trabalho a ser realizado, o que demandaria, por parte da empresa, pedidos de reajustes do contrato — o que se efetivou e demonstrou má-fé por parte da ?????, que apresentou proposta com valores mais baixos com o único fim de garantir a primeira colocação para logo solicitar valores mais altos.”

O Globo, maio, 2012

Na semana passada, postaram uma mensagem num grupo de tradutores do Facebook em que o autor pedia currículos e cotações de tradutores para diversos pares de idiomas.
O que a princípio poderia parecer uma mensagem atraente, acabou virando objeto de críticas e questionamentos de vários outros participantes do grupo, predominantemente, gente com bastante experiência no mercado de tradução, que nada sabia sobre o solicitante.
O questionamento era fundamentalmente porque a pessoa não informava mais nada sobre o trabalho, não se apresentava e não aparecia em buscas pelo Google como alguém tradicionalmente ligado à profissão de tradutor.
Após muitas pedradas e críticas, o autor voltou e esclareceu. Resumidamente, disse que era de Brasília, que tinha como absorver grandes projetos e que aquele pedido era para atender a uma cotação de um órgão do governo, cujo prazo para apresentação era no início da tarde.
Ah, o governo. Cotações do governo são sempre para grandes projetos, pois as concorrências só são abertas a partir de um determinado valor. Projetos menores, de menor custo, não necessariamente precisam de concorrência pública e podem ser contratados no varejo, sem tomada prévia de preços. Quando muito, alguns órgãos exigem a apresentação de no mínimo três cotações, o que não necessarariamente configura uma concorrência de fato.
Portanto, concorrências para traduções governamentais, em geral, enchem os olhos. Sugerem valores milionários, trabalho para o resto da vida, volumes extraordinários que nos permitirão crescer, contratar, expandir. Mas há um detalhe, em geral são todas regidas pela regra do menor preço, as demais exigências vêm depois, como por exemplo comprovar a qualificação técnica para prestar o serviço.
Além disso, para prestar serviço para o governo, é preciso estar em dia com a Receita Federal e com a lei. É comum as concorrências exigirem uma série de certidões, algumas bem chatinhas de serem obtidas, por serem pagas e não estarem disponíveis pela Internet. É preciso estar em dia com o Sicaf, o Sistema de Cadastramento Unificado de Fornecedores do Executivo Federal, que por um lado facilita, mas que por outro, pode ser bem complicadinho se houver alguma pendência. Faz tempo que não me envolvo com esses processos de licitações,mas, no geral, é assim que coisa funciona. E, em geral, quem ganha concorrências é quem já sabe como o esquema funciona, mas não necessariamente sabe como tradução funciona.
Portanto, se você for mandar seu currículo para participar de um processo governamental de tomada de preço através de alguma empresa, esteja atento a uma série de problemas potenciais. É bastante comum, por exemplo, empresas que nada tem a ver com tradução, mas que já prestam serviços para o governo em outras áreas, se inscreverem nessas concorrências achando que é uma coisa muito simples e saírem pedindo currículos de tradutores a torto e a direito. O potencial de problemas de situações assim é muito grande, como se pode imaginar:
– Trabalhar muito para ganhar muito pouco (o menor preço, você já sabia disso).
– Ter que esperar tramitações burocráticas demoradas para receber, que podem resultar em grandes atrasos nos pagamentos.
– Lidar com intermediações de agentes que não necessariamente sabem com o que está lidando ao contratar tradutores.
– Esperar receber grandes volumes de trabalho que não se concretizam por inúmeras razões.
E o sempre presente imponderável, que em situações não muito claras, torna-se quase uma fatalidade.
Mas a coisa também pode dar certo. Pode ser que você tenha a boa sorte de participar de um projeto bacana, feito com transparência por gente de fato interessada num bom trabalho. Só que para isso acontecer, as coisas tem que começar bem desde o princípio e existem várias maneiras de você ter uma ideia de onde está se metendo antes de se ver preso contratualmente numa armadilha. E que fique bem claro, o problema não necessariamente é com o processo de licitação ou pelo fato de o cliente final ser uma organização governamental, e sim com quem nos envolvemos para participar de um processo desses, que a princípio, como o próprio nome diz, é para tornar o negócio o mais lícito possível.
Temos que nos informar sempre muito bem sobre nossos clientes antes de assumirmos compromissos, e isso vale para qualquer situação de trabalho, mas, no caso de concorrências públicas, o cuidado deve ser maior. Buscar saber bem quem é a pessoa ou empresa que está pedindo os currículos, verificar se as informações fornecidas são idôneas, procurar referências. Também é bom saber sobre o resto da equipe, os demais são tradutores profissionais também ou é gente que faz tradução como bico? Vão dar conta ou vai sobrar para alguém segurar pepinos por que os outros saíram fora? Além disso, em se tratando de participar de uma equipe para uma licitação, é importante  saber para que área, qual instituição, quais as reais condições da tomada de preços, até mesmo tentar ver algum material previamente. Os riscos podem ser bem altos e os ganhos bem poucos, é preciso estar atento e saber que isso é briga de cachorro grande, muito grande.
Num primeiro momento, o governo é aquele cliente que todos querem. Mas, após ganhar uma concorrência e depois de muitas dores de cabeça, pode se transformar naquele cliente que todos querem… à distância.

O Livro Tem Dono!

Débora Isidoro

Pensando um pouco nas coisas que me perguntam pelo twitter e por aí, achei que seria legal contar um pouco sobre como é o processo de traduzir um livro que acaba atraindo mais atenção do público e da mídia. Vários colegas aqui têm experiências semelhantes, é claro, mas muita gente que lê o trabalho final acaba criando fantasias sobre o processo de tradução de uma obra como, sei lá, Harry Potter, ou A Saga Crepúsculo. Já vou logo avisando que não vou falar sobre nenhuma das duas séries, porque não as traduzi e não conheço as tradutoras. Na verdade, eu também queria saber como foi.

Traduzir um livro é, na minha opinião, tentar “receber o espírito” do autor, mesmo que ele ainda esteja vivo, e “psicografar” a mensagem que ele transmitiu no livro que escreveu. O que tem que mudar é o idioma. De resto, é nossa obrigação respeitar o original em conteúdo, estilo e essência. A obra continua tendo um proprietário, alguém que a criou, um pai ou uma mãe, mesmo que às vezes a gente a chame de “filhote” quando a vemos pronta em português.

Quando penso nas dificuldades que um tradutor literário encontra no exercício da profissão, a primeira coisa que me vem à cabeça é esse distanciamento, em como é difícil não se apoderar de um texto que é seu, porque você o está produzindo no seu idioma de chegada, mas não é seu, porque, na verdade, você o está conduzindo para outro idioma, não está criando nada. Essa dificuldade cresce exponencialmente quando é temperada pelo interesse da mídia e pela ansiedade do público. Não sei dizer exatamente quando me dei conta de que, apesar do nome na primeira página, às vezes até bem perto do nome do autor, eu era só mais uma cadeira na longa sequência de mesas e computadores da cadeia editorial. Confesso que ainda gosto de ouvir elogios e me envaideço com o resultado de um bom trabalho, mas dou o mesmo valor a todos os títulos, trato com a mesma seriedade um quase manual de cinquenta páginas e uma série que virou filme e continua sendo xodó dos leitores, porque, em última análise, aqui no meu escritório, todos entram pela porta da frente como visitas que são, e todos saem pela porta da frente para seguirem dois caminhos distintos, de volta para seus donos (os autores), e de ida para os leitores que precisam do nosso trabalho para poder ter acesso àquela obra.

Nenhum glamour. Só trabalho duro.