Modos na cabine!

Assistido despretensiosamente, o vídeo abaixo pode parecer uma comédia, uma sátira, um exagero. Mas quem tem algum tempinho de estrada em cabine vai reconhecer a maioria desses comportamentos, até em si mesmo (!!!). Coisas que parecem inofensivas mas que na realidade incomodam muito quem está ouvindo.

Não deixe de compartilhar caso tenha alguma história engraçada sobre isso!!

Cuide bem da sua vitrine

Começo este post com uma metáfora que é considerada comum por muitos tradutores, mas ignorada por vários outros: a internet é nossa vitrine. Você já deve ter lido e ouvido muitos de nós afirmar que a internet e as mídias sociais são ótimos recursos que promovem a interação, o networking, a captação de clientes, etc. Mas fique atento: também é muito fácil se queimar.

O que não fazer na internet?

Eis uma listinha de atitudes que, a meu ver, não ajudam na construção da sua imagem profissional; só somam pontos negativos. A lista não segue uma sequência especial e – acredite se quiser – foi inspirada em situações que já presenciei ao longo de meia década de interação on-line intensa:

  1. Reclamar de falta de trabalho
  2. Reclamar de falta de dinheiro para comprar ferramenta X, Y ou Z
  3. Perguntar onde pode achar uma versão pirata do software X, Y ou Z
  4. Afirmar que decidiu comprar a licença do software X (aê, ponto positivo!), mas que vai dividir a licença com um colega – o velho jeitinho brasileiro (isso seria algo como “meia pirataria”?)
  5. Reclamar do preço de uma conferência, seminário, curso, etc.
  6. Fazer perguntas facilmente resolvidas com uma pesquisa rápida
  7. Fazer perguntas que demonstram sua total falta de noção sobre o mercado e as boas práticas (tipo “Aceitar um projeto que envolve traduzir dezenas de milhares de palavras em pouco mais de dois dias é normal?”)
  8. Afirmar que aceitou o projeto acima
  9. Afirmar que cobra tarifas baixíssimas e vive dando descontos
  10. Dar a entender que você não lê ou segue instruções, por exemplo, quando alguém anuncia uma vaga de emprego e pede que enviem o CV por e-mail, e você vai lá e dá seu e-mail; ou, em fóruns, quando pedem que sempre informem o contexto, e você continua fazendo várias perguntas sem contextualizar; ou, ainda, você tenta vender seu peixe num fórum cujas regras claramente proíbem propaganda; e por aí vai…

E o que fazer?

Além de evitar a lista acima, antes de escrever em qualquer ambiente virtual (seja uma opinião num fórum de discussão, mesmo que aparentemente fechado e privado, um comentário ou post em um blog, ou até mesmo um simples tweet ou atualização de status do Facebook), pergunte a si mesmo se gostaria que essas informações saíssem numa manchete de jornal ou fossem lidas por um cliente potencial. Pois é, parece exagero, mas é quase a mesma coisa. Lembre-se de que não temos controle sobre o destino de nada que jogamos na imensidão da internet, e muito menos sobre os possíveis leitores.

Entre outras coisas legais, colaborar para tirar dúvidas dos colegas, escrever com atenção à ortografia, gramática, coesão e coerência, fazer perguntas inteligentes e bem contextualizadas, manter um blog e um site interessantes, saber manter uma postura profissional e equilibrada mesmo quando uma criatura totalmente sem noção invade nosso espaço, tudo isso soma pontos a seu favor.

Os resultados

Já perdi as contas de quantas oportunidades ótimas surgiram porque (quase) sempre cuidei bem da minha vitrine, da minha imagem virtual. Não falo apenas de clientes diretos que me acharam online, mas de parcerias incríveis que vivem me aparecendo (até minha sócia, a Carol Alfaro, conheci primeiro na internet), recomendações de colegas (tanto tradutores quanto PMs) que geram fluxo de trabalho constante, e dos vários amigos que conquisto e que me conquistam ano após ano.

Eu certamente não estaria onde estou, pessoal e profissionalmente, se não fosse pelos benefícios que colhi, pelos contatos que fiz, pela atenção que tenho dado à interação virtual com colegas e pelos cuidados com o que publico em sites, blogs e fóruns.

Para fechar…

Se você ainda não leu a matéria Profissionais conectados, da edição especial da revista Língua Portuguesa de abril de 2012, recomendo muitíssimo. Vários de nós demos entrevistas e dicas sobre o assunto.

Agora quero jogar a bola para vocês, pois minha lista está longe de ser completa: o que mais poderíamos acrescentar?

Ah, e eu gostaria de ter justificado cada um dos itens que pus na lista acima, mas isso deixaria o texto longo demais. Prefiro bater um papo na seção de comentários com quem estiver a fim. 🙂

* * *

Bianca Bold é tradutora, intérprete, revisora, treinadora, legendadora, blogueira, mestranda, salseira/forrozeira/etc. e mãe da puggle mais linda do mundo. Se quiser mais informações, visite www.biancabold.com e www.translationclientzone.com.

O cliente tem sempre razão…

Este é o lema do prestador de serviço: o cliente tem sempre razão. Ele pede, exige e a gente faz.

Mas às vezes o cliente é mal informado ou já foi passado para trás antes, então já chega para a gente meio abacaxi: difícil de descascar. E, por mais convincente que a gente seja, não há como demover a ideia de que é tudo a mesma coisa ou, para citar o livro excelente do Umberto Eco sobre tradução, Quase a mesma coisa.

Explique para um cliente que CAT Tool e MT não são a mesma coisa. Tente enfiar na cabeça dele que você trabalha com uma ferramenta que facilita seu serviço e ainda confere consistência terminológica, mantém a formatação do jeitinho que ele mandou. Às vezes, as duas partes não falam a mesma língua. Muitas vezes, literalmente. E o cliente pede, encarecidamente, para que você não use a tal ferramenta milagrosa, pois antes já fizeram para ele um trabalho no Google Translate e a formatação foi para o brejo.

Silêncio profundo para aquela respirada antes do ataque apoplético.

Ou o cliente pede, estritamente, AQUELA ferramenta que é cara, complicada de usar e que fica muito aquém da sua ferramenta mais em conta, ágil e com um serviço de atendimento ao cliente impecável, rapidíssimo, mesmo estando às margens do Danúbio. O que fazer?

Trabalhe do seu jeito. Use, se possível, a ferramenta com a qual você se adapta melhor. Mas respeite o cliente, entregue o trabalho do jeitinho que ele pediu. Ele tem sempre razão e, por isso, deve receber seu melhor serviço, sempre. Agora, o que você vai fazer com o texto dele durante a sua labuta é problema seu (e total responsabilidade sua).

E antes que eu me esqueça: para ótimas dicas sobre a relação tradutor e cliente, não deixem de visitar o Translation Client Zone, da Bianca Bold.

Abraço!

O que você aceita?

Hoje, na comunidade de tradutores do Facebook, uma colega fez um desabafo. Recebeu uma proposta indecente de uma editora, totalmente fora do mercado. O desabafo rendeu, pasmos que ficaram os membros da comunidade, e me inspirou para fazer este post. A pergunta retórica acima leva a muitos pensamentos que ficaram pendurados na postagem da colega, nas opiniões que fizeram uma coluna bonita no meio da comunidade.

Como a própria colega disse, não adianta brigar. Vai ter gente que aceitará o tal preço sem chorar, rindo ainda por cima. Talvez por não estar no mercado ainda, por necessidade, por desinformação. A minha questão é: o que cada um aceita é problema dela, mas e o restante da classe? Por mais desunida (e hoje a situação está um pouco mudada) que seja a classe tradutória, o mínimo para alguém que se denomine tradutor é estar atento. Sua hora vale tantas merrecas? A mixaria, que mal dá para compensar o que você gastou de energia (elétrica,  vital, intelectual) na realização da tarefa, pagará tempo que você não vai passar com aqueles que você ama, os finais de semana, o ócio tão bem-vindo, o estudo e a leitura perdidos quando o chequinho magro bater na sua conta?

Não saio por aí dizendo que sou o tradutor mais bem pago da paróquia, nem gritando meu preço a quatro ventos, mas eu me respeito. E honro minha palavra quando caio numa roubada, por exemplo, uma preparação que duraria duas semanas e levou quase um mês de tão ruim que a tradução estava. E se cada tradutor pensasse duas vezes antes de pôr tudo que ele aprendeu a serviço de canalhas que se aproveitam das mínimas oportunidades, com certeza não teríamos posts como este.

O caso do Frankenstein luso-brasileiro

Esta semana fiz a revisão de uma tradução bem peculiar, tanto que perguntei o nome do profissional à PM, pois queria ver se o conhecia ou se ele pertencia a algum dos fóruns de que participo. Minha intenção era dar uns toques a essa pessoa, mas como o nome dela não aparece em lugar algum da internet, resolvi escrever aqui. No final das contas, é até bom as dicas ficarem disponíveis publicamente, respeitando todo o sigilo necessário.

O que aconteceu?

O texto que a agência me enviou para revisar estava um verdadeiro Frankenstein luso-brasileiro. Sem demora, perguntei à PM se eu tinha entendido certo, que o texto era para o público brasileiro e comentei sobre o problema. Espantada, a PM confirmou que sim, não só o texto era brasileiro, como também a tradutora. Conversamos uns minutos pelo Skype, tentando entender como é que uma brasileira pode escrever trechos em português europeu num texto destinado ao Brasil. A resposta não tardou: culpa da TM, que estava uma salada! Percebi que todas as ocorrências de português europeu apareciam como 100% match.

De quem é a culpa?

Bom, a PM deve ser a culpada pela confusão com as TMs, pois ela sempre envia um arquivo atualizado a cada serviço.

O desconto aplicado pela agência por 100% matches deve ser o culpado pela “falta de atenção” da tradutora aos segmentos 100% “cuspidos” pela TM do cliente.

Em tempo, não era nada sutil. Foram mantidas frases inteiras que soam completamente estranhas aos ouvidos brasileiros, coisas como “inquérito” (em vez de “pesquisa”), “contacto”, “estamos a fazer”, “secção”, além daquelas frases com sujeito oculto quando brazucas usariam um “você” naturalmente, e muito mais. Também não foi uma única frase perdida… foram pelo menos três parágrafos.

O que a tradutora deveria ter feito?

A meu ver, nada justifica um profissional entregar um texto contendo duas variantes de um idioma sem ao menos se dar o trabalho de questionar ou informar o cliente sobre a situação.

Eu entendo que nenhum profissional quer ter o trabalho de retraduzir algo quando a TM deixa a desejar, e o cliente não paga a tarifa cheia. O problema poderia ter sido rapidamente solucionado com um e-mail ou papo no Skype, chutando a bola para o outro campo.

PM não é bicho nem inimigo do tradutor. A ideia é que esse profissional esteja disponível para solucionar problemas com o projeto. Não entendo como um tradutor detecta um problema assim e não comunica ao cliente. E o considero o caso muito pior se o tradutor nem tiver lido o texto. A impressão que me dá é que a tradutora em questão (1) nem leu o texto “cuspido” pela TM ou (2) leu e não estava nem aí para a qualidade nem a satisfação do cliente. Também desconfio que essa pessoa não faça uma leitura final do texto, que considero essencial. E é, ainda, um indício de que ela não usa corretor ortográfico.

E o lado bom de tudo isso?

Talvez a agência tenha aprendido uma lição, pois a PM comentou que deixou de contratar uma colega competentíssima para esse projeto porque “o orçamento do cliente final estava curto” para pagar a tarifa dela pela tradução.

Do meu lado, nem considero os trocados que ganhei a mais com a cirurgia plástica do Frankenstein (já que o cliente me paga por hora). Mas há um resultado óbvio da lei do mais forte ou, no caso, do mais competente. Enquanto esse profissional caiu no conceito da PM, que ficou muito decepcionada, eu fui considerada a salvadora da pátria: “Thank God you’re editing!” foram as palavras dela.

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Bianca Bold
é tradutora, intérprete, revisora, treinadora, legendadora, blogueira, mestranda, salseira/forrozeira/etc. e mãe da puggle mais linda do mundo. Se quiser mais informações, visite www.biancabold.com e www.translationclientzone.com.