Interpretar o intraduzível

Adriana Machado

O trabalho de interpretação costuma ser cercado de mitos. Eu acho que “causos” são a melhor arma para derrubar mitos. Não acredito em “segredos de cabine”. Mistério pra quê? Vamos lá.

Uma das mais tradicionais piadas sobre interpretação diz o seguinte:

To make a long story short...

A missionary goes to Africa to visit a community, a very old, primitive tribal community. He gives a long sermon. For half an hour he tells a long anecdote, and then the interpreter stands up. He speaks only four words and everyone laughs uproariously. The missionary is puzzled. How is it possible that a story half an hour long can be translated in four words. What kind of amazing language is this? Puzzled, he says to the interpreter, “You have done a miracle. You have spoken only four words. I don’t know what you said, but how can you translate my story, which was so long, into only four words?”

The interpreter says, “Story too long, so I say, ‘He says joke — laugh!’ ”

O que aqui é contado como piada, acredito que seja na verdade uma estratégia para os intérpretes, principalmente na tradução simultânea. Fala-se sobre isso, em tom de piada e eu tinha a curiosidade de saber se alguém realmente usa a estratégia.

Aparentemente sim, como se vê no vídeo abaixo (em inglês), com conselhos de um professor de interpretação da universidade de Leeds (Obrigada Cecilia Mattos!):

Nunca tinha precisado lidar com isso… até hoje!

E não foi um palestrante contando uma piada ou fazendo uma gracinha para quebrar o gelo no início de uma apresentação, não! Cheguei no evento ciente que teria que interpretar uma rápida intervenção do comediante Marco Luque com seu personagem Silas Simplesmente, o taxista.

Uma das características do personagem é justamente inserir palavras em inglês, normalmente pronunciadas de forma engraçada, na sua fala. Considerei substituir por palavras em espanhol, mas sabia que não seria a mesma coisa.

Um detalhe Minha sorte era que havia apenas um único ser humano que iria ouvir a tradução para inglês e pensei: vou avisar que a graça do personagem é usar palavras em inglês e continuo traduzindo o conteúdo, paciência. Isso combinado com o parceiro de cabine, mandei bala.

Até que Silas Simplesmente simplesmente começou a fazer piadas usando nomes e sobrenomes de famosos. Assim:

Você quebra nozes e o Francisco Cuoco

Sua buzina faz bibi, a da Joana Fomm

Você na cama dá duas, Leonardo da Vinci

Você morre uma vez, a Alanis Morrissette

O seu é pequeno, o do Paulo Cesar Grande

São as que eu lembro, mas foram bem umas vinte, no mínimo.

Aí não tem jeito né? Tive que usar a estratégia da piada, dizer: “ele está fazendo piadas usando o sobrenome de pessoas famosas” e, glória das glórias, desligar o microfone e finalmente poder me acabar de rir alto. 😀

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Tradutor também faz laboratório

Flávia Souto Maior

Quando recebi a primeira proposta para traduzir livros infanto-juvenis (young-adult literature – YA, ou crossover fiction), não sabia muito bem o que esperar. Na minha cabeça, as dificuldades não seriam grandes, o texto seria mais leve, mais “fácil”. Topei.

Mas não foi bem assim. Comecei a ler o original e logo me dei conta de que há tempos não tinha contato algum com adolescentes, nem o hábito de ler blogs ou publicações voltados para esse tipo de público. O que fazer com todas aquelas gírias? Se eu usasse as que conhecia, estaria entregando a idade.

Descobrir o que significavam não foi tão difícil, já que para traduzir temos que ser ótimos pesquisadores. Nesse caso específico, dicionários não ajudam muito. Mas o contexto aliado a leiturinhas aqui e ali já resolveriam o meu problema. No entanto, como diria aquilo em português? Se a personagem tem dezesseis anos, não pode falar como uma menina mulher de trinta.

Eu sempre tive mania de ficar escutando conversas alheias. Sei que não é muito educado, mas para mim é o modo mais rico de ter contato com registros linguísticos diferentes do meu em sua forma mais pura, sem interferências. Fico de ouvido ligado em restaurantes, filas, cafés. Uma vez, no ônibus, deixei de descer no meu ponto para saber se, afinal, a recepcionista de um hospital conseguiria convencer o namorado a deixá-la viajar sozinha com uma amiga do trabalho. Reparo em tudo, principalmente nas escolhas lexicais. Vou anotando na cabeça, às vezes em um caderninho.

Pois foi assim que resolvi fazer uma laboratório intensivo de bisbilhotamento de conversas de teens.  Em cafés e restaurantes, em vez de fugir daquela mesinha barulhenta como sempre costumava fazer, lá ia eu sentar bem perto. Fila de cinema, lá estava eu com meu saquinho de pipoca. Pensei em passar em uma escola no horário da saída dos alunos, mas achei que talvez os pais pudessem estranhar uma pessoa rondando seus filhos.

Também fiquei mais atenta à forma como os adolescentes se comunicavam por escrito. Aí foi a hora de correr para os blogs, Twitter e Facebook. Comecei a seguir primos, amigos de primos, filhos de amigos…

Em pouco tempo, construí meu repertório. Os diálogos dos livros, que antes pareciam tão travados em português, foram fluindo, ficando mais autênticos. Aparentemente, o resultado foi aprovado, pois continuo traduzindo livros desse gênero.

#Fik dik. Quando precisar traduzir um registro que não domina, em vez de apelar para #G-zuiz e gritar #oremos, basta prestar mais atenção à sua volta.