O cliente tem sempre razão…

Este é o lema do prestador de serviço: o cliente tem sempre razão. Ele pede, exige e a gente faz.

Mas às vezes o cliente é mal informado ou já foi passado para trás antes, então já chega para a gente meio abacaxi: difícil de descascar. E, por mais convincente que a gente seja, não há como demover a ideia de que é tudo a mesma coisa ou, para citar o livro excelente do Umberto Eco sobre tradução, Quase a mesma coisa.

Explique para um cliente que CAT Tool e MT não são a mesma coisa. Tente enfiar na cabeça dele que você trabalha com uma ferramenta que facilita seu serviço e ainda confere consistência terminológica, mantém a formatação do jeitinho que ele mandou. Às vezes, as duas partes não falam a mesma língua. Muitas vezes, literalmente. E o cliente pede, encarecidamente, para que você não use a tal ferramenta milagrosa, pois antes já fizeram para ele um trabalho no Google Translate e a formatação foi para o brejo.

Silêncio profundo para aquela respirada antes do ataque apoplético.

Ou o cliente pede, estritamente, AQUELA ferramenta que é cara, complicada de usar e que fica muito aquém da sua ferramenta mais em conta, ágil e com um serviço de atendimento ao cliente impecável, rapidíssimo, mesmo estando às margens do Danúbio. O que fazer?

Trabalhe do seu jeito. Use, se possível, a ferramenta com a qual você se adapta melhor. Mas respeite o cliente, entregue o trabalho do jeitinho que ele pediu. Ele tem sempre razão e, por isso, deve receber seu melhor serviço, sempre. Agora, o que você vai fazer com o texto dele durante a sua labuta é problema seu (e total responsabilidade sua).

E antes que eu me esqueça: para ótimas dicas sobre a relação tradutor e cliente, não deixem de visitar o Translation Client Zone, da Bianca Bold.

Abraço!

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O que você aceita?

Hoje, na comunidade de tradutores do Facebook, uma colega fez um desabafo. Recebeu uma proposta indecente de uma editora, totalmente fora do mercado. O desabafo rendeu, pasmos que ficaram os membros da comunidade, e me inspirou para fazer este post. A pergunta retórica acima leva a muitos pensamentos que ficaram pendurados na postagem da colega, nas opiniões que fizeram uma coluna bonita no meio da comunidade.

Como a própria colega disse, não adianta brigar. Vai ter gente que aceitará o tal preço sem chorar, rindo ainda por cima. Talvez por não estar no mercado ainda, por necessidade, por desinformação. A minha questão é: o que cada um aceita é problema dela, mas e o restante da classe? Por mais desunida (e hoje a situação está um pouco mudada) que seja a classe tradutória, o mínimo para alguém que se denomine tradutor é estar atento. Sua hora vale tantas merrecas? A mixaria, que mal dá para compensar o que você gastou de energia (elétrica,  vital, intelectual) na realização da tarefa, pagará tempo que você não vai passar com aqueles que você ama, os finais de semana, o ócio tão bem-vindo, o estudo e a leitura perdidos quando o chequinho magro bater na sua conta?

Não saio por aí dizendo que sou o tradutor mais bem pago da paróquia, nem gritando meu preço a quatro ventos, mas eu me respeito. E honro minha palavra quando caio numa roubada, por exemplo, uma preparação que duraria duas semanas e levou quase um mês de tão ruim que a tradução estava. E se cada tradutor pensasse duas vezes antes de pôr tudo que ele aprendeu a serviço de canalhas que se aproveitam das mínimas oportunidades, com certeza não teríamos posts como este.

Governo, o cliente que todos querem

Daniel Estill

“A prefeitura diz, por meio de nota, que jamais teve a intenção de contratar a ????? e que só o fez por decisão judicial. A empreiteira teria posto apenas quatro operários para varrer 15 km por mês. A prefeitura afirma que “sabia que os preços apresentados na proposta licitatória eram insuficientes para a quantidade de trabalho a ser realizado, o que demandaria, por parte da empresa, pedidos de reajustes do contrato — o que se efetivou e demonstrou má-fé por parte da ?????, que apresentou proposta com valores mais baixos com o único fim de garantir a primeira colocação para logo solicitar valores mais altos.”

O Globo, maio, 2012

Na semana passada, postaram uma mensagem num grupo de tradutores do Facebook em que o autor pedia currículos e cotações de tradutores para diversos pares de idiomas.
O que a princípio poderia parecer uma mensagem atraente, acabou virando objeto de críticas e questionamentos de vários outros participantes do grupo, predominantemente, gente com bastante experiência no mercado de tradução, que nada sabia sobre o solicitante.
O questionamento era fundamentalmente porque a pessoa não informava mais nada sobre o trabalho, não se apresentava e não aparecia em buscas pelo Google como alguém tradicionalmente ligado à profissão de tradutor.
Após muitas pedradas e críticas, o autor voltou e esclareceu. Resumidamente, disse que era de Brasília, que tinha como absorver grandes projetos e que aquele pedido era para atender a uma cotação de um órgão do governo, cujo prazo para apresentação era no início da tarde.
Ah, o governo. Cotações do governo são sempre para grandes projetos, pois as concorrências só são abertas a partir de um determinado valor. Projetos menores, de menor custo, não necessariamente precisam de concorrência pública e podem ser contratados no varejo, sem tomada prévia de preços. Quando muito, alguns órgãos exigem a apresentação de no mínimo três cotações, o que não necessarariamente configura uma concorrência de fato.
Portanto, concorrências para traduções governamentais, em geral, enchem os olhos. Sugerem valores milionários, trabalho para o resto da vida, volumes extraordinários que nos permitirão crescer, contratar, expandir. Mas há um detalhe, em geral são todas regidas pela regra do menor preço, as demais exigências vêm depois, como por exemplo comprovar a qualificação técnica para prestar o serviço.
Além disso, para prestar serviço para o governo, é preciso estar em dia com a Receita Federal e com a lei. É comum as concorrências exigirem uma série de certidões, algumas bem chatinhas de serem obtidas, por serem pagas e não estarem disponíveis pela Internet. É preciso estar em dia com o Sicaf, o Sistema de Cadastramento Unificado de Fornecedores do Executivo Federal, que por um lado facilita, mas que por outro, pode ser bem complicadinho se houver alguma pendência. Faz tempo que não me envolvo com esses processos de licitações,mas, no geral, é assim que coisa funciona. E, em geral, quem ganha concorrências é quem já sabe como o esquema funciona, mas não necessariamente sabe como tradução funciona.
Portanto, se você for mandar seu currículo para participar de um processo governamental de tomada de preço através de alguma empresa, esteja atento a uma série de problemas potenciais. É bastante comum, por exemplo, empresas que nada tem a ver com tradução, mas que já prestam serviços para o governo em outras áreas, se inscreverem nessas concorrências achando que é uma coisa muito simples e saírem pedindo currículos de tradutores a torto e a direito. O potencial de problemas de situações assim é muito grande, como se pode imaginar:
– Trabalhar muito para ganhar muito pouco (o menor preço, você já sabia disso).
– Ter que esperar tramitações burocráticas demoradas para receber, que podem resultar em grandes atrasos nos pagamentos.
– Lidar com intermediações de agentes que não necessariamente sabem com o que está lidando ao contratar tradutores.
– Esperar receber grandes volumes de trabalho que não se concretizam por inúmeras razões.
E o sempre presente imponderável, que em situações não muito claras, torna-se quase uma fatalidade.
Mas a coisa também pode dar certo. Pode ser que você tenha a boa sorte de participar de um projeto bacana, feito com transparência por gente de fato interessada num bom trabalho. Só que para isso acontecer, as coisas tem que começar bem desde o princípio e existem várias maneiras de você ter uma ideia de onde está se metendo antes de se ver preso contratualmente numa armadilha. E que fique bem claro, o problema não necessariamente é com o processo de licitação ou pelo fato de o cliente final ser uma organização governamental, e sim com quem nos envolvemos para participar de um processo desses, que a princípio, como o próprio nome diz, é para tornar o negócio o mais lícito possível.
Temos que nos informar sempre muito bem sobre nossos clientes antes de assumirmos compromissos, e isso vale para qualquer situação de trabalho, mas, no caso de concorrências públicas, o cuidado deve ser maior. Buscar saber bem quem é a pessoa ou empresa que está pedindo os currículos, verificar se as informações fornecidas são idôneas, procurar referências. Também é bom saber sobre o resto da equipe, os demais são tradutores profissionais também ou é gente que faz tradução como bico? Vão dar conta ou vai sobrar para alguém segurar pepinos por que os outros saíram fora? Além disso, em se tratando de participar de uma equipe para uma licitação, é importante  saber para que área, qual instituição, quais as reais condições da tomada de preços, até mesmo tentar ver algum material previamente. Os riscos podem ser bem altos e os ganhos bem poucos, é preciso estar atento e saber que isso é briga de cachorro grande, muito grande.
Num primeiro momento, o governo é aquele cliente que todos querem. Mas, após ganhar uma concorrência e depois de muitas dores de cabeça, pode se transformar naquele cliente que todos querem… à distância.