Remando

Daniel Estill

Comecei a praticar o Stand Up Paddle há uns dois meses. Há tempos que tinha vontade de remar, mas sempre faltava a iniciativa. Até que um professor se instalou na praia do Flamengo para dar aulas e alugar as pranchas e ficou mais fácil. Fiz a primeira aula, com instruções básicas, e comecei. Tenho ido quase todo dia, chego cedo, entre 6h30 e 7h, remo por mais ou menos uma hora e lá pelas 9h, já estou sentadinho diante do computador para as remadas tradutórias.

Em geral, remo sozinho, assim como traduzo sozinho. Mas, sinto falta de companhia, até para poder remar para mais longe, assim como não dá para traduzir grandes projetos sozinho. Companhia é bom, colegas ajudam.

Em dois meses, já conheci algumas pessoas, em geral, neófitos como eu. Uns levam mais jeito, outros, menos. Hoje, sábado, saí para remar sozinho, estava meio desanimado, mas o mar estava bem liso, sem vento e lá fui eu. Remei, parei, fiquei boiando olhando a paisagem em volta, o Pão de Açúcar no fundo, o Cristo mais adiante, a ponte Rio-Niterói do outro lado. Nisso, vi um outro remador se aproximando. Remava forte, seguro, uma prancha bacana, aquele jeito de experiência que a gente, que está começando, logo olha com inveja e deseja para si. Que tradutor que está começando não olha a galera experiente, falando de projetos, ferramentas, clientes bons e ruins, e não pensa, “por que não eu?”.

O remador passou por mim, ao largo, nos encaramos, mas ele não parou. Tratei então de me por de pé e começar a remar, de longe, mas acompanhando. Tive que acelerar meu ritmo, cansar um pouquinho mais, mas acabamos nos encontrando lá na Urca. Trocamos algumas amabilidades, começamos a remar  na mesma direção. Vamos até ali? Vamos. Vamos até lá? Vamos. Fomos.

Encontramos remadores de caiaque. De canoa polinésia. Ele conhecia algumas pessoas, pois já fora remador de canoa também, me contou. Ah, que legal, eu disse, eu gostaria de experimentar. Ah, é? Vamos lá que te apresento. E assim foi. Fomos até a prainha da Urca, ele me apresentou o dono da canoa, que dá aulas e tem turmas. Remam longe, bem mais longe do que com a prancha de Stand Up. Remadas longas, um desejo meu. Trabalho de equipe, todo mundo junto, quando um cansa, o outro compensa, uns produzem mais, outros menos, mas no final, todos chegam. Não é diferente dos projetos de localização mais complicados que existem por aí. Mas para essas remadas mais longas, é preciso antes remar sozinho, é preciso mostrar que você sabe remar e chegar um pouquinho além, e chegar inteiro. É preciso saber se aproximar. São coisas que se aprendem, não dá para simplesmente chegar e dizer, “me leva nessa sua canoa aí”.

Tive uma relativa facilidade com esse esporte, mas não foi por um talento natural ou por inspiração divina. Ajudou muito eu ter velejado quando era moleque. Ajudou muito ter praticado natação ocasionalmente. Ajudou muito eu não ter medo do mar por já ter mergulhado aqui e ali. Não sou nenhum desportista radical, sou até bem sedentário, mas até que, essa experiência anterior, ainda que esporádica, está me ajudando bastante. Na tradução não é diferente. Não sou nenhum grande sucesso tradutório, mas consegui me estabelecer. Com o tempo, me aproximando das pessoas certas, fazendo as perguntas certas, observando quem sabia mais do que eu. Atualmente, não falta trabalho, assim como não falta mar onde remar.