Rocket science

Em algum momento da década de 90, um potencial cliente me chamou ao seu escritório para conversarmos sobre um grande projeto de tradução. Tratava-se de uma empresa de tecnologia de ponta, literalmente, rocket science. Estavam construindo uma malha de satélites de comunicação em torno da Terra para a comunicação telefônica. O rapaz que me chamou era novo na empresa e ficara encarregado de cuidar das traduções de uma enorme quantidade de manuais, lembro vagamente de um número como 700. Setecentos grossos manuais sobre lançamento, colocação em órbita e operação de satélites e suas respectivas bases de controle em uma rede mundial de telecomunicações.

O rapaz me entregou um dos manuais como amostra, com base no orçamento para aquele exemplar, faríamos uma projeção para o todo do projeto. Fiz a contagem de palavras por página — os manuais estavam impressos, não tínhamos acesso ao formato eletrônico — e cheguei a um valor digamos de dois mil e quinhentos reais, algo como uns mil e poucos dólares. A projeção para todo o projeto ficaria pois em algo da ordem de 1,75 milhão de reais, algo em torno de uns setecentos mil dólares hoje, em julho de 2009.

Para uma pequena agência de tradução, era uma cifra inimaginável. Mesmo dando o menor preço por palavra possível, era muito, mas muito dinheiro. Nossos olhos brilharam e começamos a sonhar. Sonho que durou pouco, obviamente.

Após o envio da proposta, silêncio, vários dias. Resposta alguma do cliente. “Claro”, pensamos, “trata-se de uma grande soma, é uma decisão demorada mesmo”. Uma semana se passou desde o envio da proposta, não dava para continuar esperando e liguei para o meu contato na empresa e a resposta foi mais surpreendente do que frustrante:

— A direção concluiu que sairia mais barato ensinar inglês aos técnicos do que traduzir os manuais.

Não sei quantos técnicos eram, não deviam ser tantos assim. Estavam montando a operação no Brasil, precisariam de gente capaz de operar os satélites que cobririam a nossa região, a instalação das bases ainda levaria algum tempo, viriam técnicos e executivos do exterior. Enfim, era um projeto de longo prazo. Será que daria tempo de ensinar inglês para um bando de engenheiros e técnicos de diferentes níveis em, digamos, dois anos, a ponto de estarem aptos a lidar com instruções complexas, terminologia altamente especializada e todo o aparato envolvido com a história? Deixo a questão aberta aos comentários que alguma alma generosa se disponha a fazer.

Um abraço.

PS. Se você não conhece a expressão rocket science, peça ao Ulisses um post no tecla sap 😉

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O cliente tem sempre razão…

Este é o lema do prestador de serviço: o cliente tem sempre razão. Ele pede, exige e a gente faz.

Mas às vezes o cliente é mal informado ou já foi passado para trás antes, então já chega para a gente meio abacaxi: difícil de descascar. E, por mais convincente que a gente seja, não há como demover a ideia de que é tudo a mesma coisa ou, para citar o livro excelente do Umberto Eco sobre tradução, Quase a mesma coisa.

Explique para um cliente que CAT Tool e MT não são a mesma coisa. Tente enfiar na cabeça dele que você trabalha com uma ferramenta que facilita seu serviço e ainda confere consistência terminológica, mantém a formatação do jeitinho que ele mandou. Às vezes, as duas partes não falam a mesma língua. Muitas vezes, literalmente. E o cliente pede, encarecidamente, para que você não use a tal ferramenta milagrosa, pois antes já fizeram para ele um trabalho no Google Translate e a formatação foi para o brejo.

Silêncio profundo para aquela respirada antes do ataque apoplético.

Ou o cliente pede, estritamente, AQUELA ferramenta que é cara, complicada de usar e que fica muito aquém da sua ferramenta mais em conta, ágil e com um serviço de atendimento ao cliente impecável, rapidíssimo, mesmo estando às margens do Danúbio. O que fazer?

Trabalhe do seu jeito. Use, se possível, a ferramenta com a qual você se adapta melhor. Mas respeite o cliente, entregue o trabalho do jeitinho que ele pediu. Ele tem sempre razão e, por isso, deve receber seu melhor serviço, sempre. Agora, o que você vai fazer com o texto dele durante a sua labuta é problema seu (e total responsabilidade sua).

E antes que eu me esqueça: para ótimas dicas sobre a relação tradutor e cliente, não deixem de visitar o Translation Client Zone, da Bianca Bold.

Abraço!

Denise Bottmann fala de teoria e prática da tradução em aula inaugural na UFSC

“Quando Monsieur Jourdain descobre que fala em prosa: comentários sobre o difícil trânsito entre dois campos separados e mutuamente irredutíveis, a teoria e a prática da tradução”, aula inaugural apresentada na Pós-Graduação em Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina, a cargo da querida Denise Bottmann, já está disponível no site da própria PGET: http://www.pget.ufsc.br/curso/realizacoes.php?id=206

A aula provoca desde o início uma reflexão sobre o papel da teoria da tradução na própria prática da tradução, em específico na tradução autoral. Será que a teoria engessa a prática? Será que pode tornar os tradutores futuros “Jourdains” da tradução? Afinal o burguês Mounsieur Jourdain de Mouliere já falava em prosa, mesmo não sabendo que o fazia. Tentar aprimorar a própria prosa usando uma linguagem mais rebuscada, simplesmente tornaria a fala artificial e afetada, ou em outras palavras, ridícula.

Os que traduzem intuitivamente, assim como Mounsieur Jordain, ignoram os mecanismos que estão sendo mobilizados, mas atingem o próprio instrumental, sua própria bagagem cultural, os sistemas linguísticos utilizados, as “leituras comparativas, os dicionários, as pesquisas literárias, os diferentes estilos” e as várias figuras de linguagens para escrever sua tradução. Eles utilizam seu instrumental, conhecem bem suas ferramentas, mas usam os mecanismos mobilizados para o uso deste instrumental de forma intuitiva. Será que conhecer estes mecanismos já utilizados intuitivamente os aperfeiçoa ou os torna engessados? Será que conhecê-los os torna controlados demais e bloqueia a espontaneidade do tradutor? Qual será o ponto de equilíbrio? Será então que traduzir é uma arte inata? Será que já nascemos com esta aptidão, com este talento, esta capacidade de captar o que foi escrito pelo autor?

E ainda, qual o melhor caminho a seguir para ser um tradutor? Ou ainda, para ser um bom tradutor? Quais os pré-requisitos para ser um tradutor? E para ingressar em um curso de pós-graduação em tradução? O que um curso de pós-graduação em tradução deveria oferecer a seus alunos? Como fazer com que o aluno mobilize corretamente seu instrumental?
Tradutor gosta de ler e o faz desde pequeno. Difícil alguém ser tradutor sem ter prazer pela leitura. Difícil conseguir traduzir e produzir bons textos na própria língua sem ter uma considerável bagagem de leitura anterior. Imprescindível dominar a própria língua de antemão. Não é concebível que alguém que pretenda ser tradutor desconheça normas gramaticais, de sintaxe, fíguras de linguagem. O que fazer, então, para ensinar a traduzir ou melhorar a atividade tradutória dos alunos? Oficinas. Nada como a prática afinal!
Uma bela mensagem da Denise Bottmann aos jovens que ingressam neste mundo: utilizem sua “capacidade de dedicação plena”, seu “coração de trabalho”, dediquem-se.
Mas já escrevi demais, melhor vocês ouvirem a aula magistral da Denise com seus próprios ouvidos.

http://www.pget.ufsc.br/curso/realizacoes.php?id=206