O que você aceita?

Hoje, na comunidade de tradutores do Facebook, uma colega fez um desabafo. Recebeu uma proposta indecente de uma editora, totalmente fora do mercado. O desabafo rendeu, pasmos que ficaram os membros da comunidade, e me inspirou para fazer este post. A pergunta retórica acima leva a muitos pensamentos que ficaram pendurados na postagem da colega, nas opiniões que fizeram uma coluna bonita no meio da comunidade.

Como a própria colega disse, não adianta brigar. Vai ter gente que aceitará o tal preço sem chorar, rindo ainda por cima. Talvez por não estar no mercado ainda, por necessidade, por desinformação. A minha questão é: o que cada um aceita é problema dela, mas e o restante da classe? Por mais desunida (e hoje a situação está um pouco mudada) que seja a classe tradutória, o mínimo para alguém que se denomine tradutor é estar atento. Sua hora vale tantas merrecas? A mixaria, que mal dá para compensar o que você gastou de energia (elétrica,  vital, intelectual) na realização da tarefa, pagará tempo que você não vai passar com aqueles que você ama, os finais de semana, o ócio tão bem-vindo, o estudo e a leitura perdidos quando o chequinho magro bater na sua conta?

Não saio por aí dizendo que sou o tradutor mais bem pago da paróquia, nem gritando meu preço a quatro ventos, mas eu me respeito. E honro minha palavra quando caio numa roubada, por exemplo, uma preparação que duraria duas semanas e levou quase um mês de tão ruim que a tradução estava. E se cada tradutor pensasse duas vezes antes de pôr tudo que ele aprendeu a serviço de canalhas que se aproveitam das mínimas oportunidades, com certeza não teríamos posts como este.

O caso do Frankenstein luso-brasileiro

Esta semana fiz a revisão de uma tradução bem peculiar, tanto que perguntei o nome do profissional à PM, pois queria ver se o conhecia ou se ele pertencia a algum dos fóruns de que participo. Minha intenção era dar uns toques a essa pessoa, mas como o nome dela não aparece em lugar algum da internet, resolvi escrever aqui. No final das contas, é até bom as dicas ficarem disponíveis publicamente, respeitando todo o sigilo necessário.

O que aconteceu?

O texto que a agência me enviou para revisar estava um verdadeiro Frankenstein luso-brasileiro. Sem demora, perguntei à PM se eu tinha entendido certo, que o texto era para o público brasileiro e comentei sobre o problema. Espantada, a PM confirmou que sim, não só o texto era brasileiro, como também a tradutora. Conversamos uns minutos pelo Skype, tentando entender como é que uma brasileira pode escrever trechos em português europeu num texto destinado ao Brasil. A resposta não tardou: culpa da TM, que estava uma salada! Percebi que todas as ocorrências de português europeu apareciam como 100% match.

De quem é a culpa?

Bom, a PM deve ser a culpada pela confusão com as TMs, pois ela sempre envia um arquivo atualizado a cada serviço.

O desconto aplicado pela agência por 100% matches deve ser o culpado pela “falta de atenção” da tradutora aos segmentos 100% “cuspidos” pela TM do cliente.

Em tempo, não era nada sutil. Foram mantidas frases inteiras que soam completamente estranhas aos ouvidos brasileiros, coisas como “inquérito” (em vez de “pesquisa”), “contacto”, “estamos a fazer”, “secção”, além daquelas frases com sujeito oculto quando brazucas usariam um “você” naturalmente, e muito mais. Também não foi uma única frase perdida… foram pelo menos três parágrafos.

O que a tradutora deveria ter feito?

A meu ver, nada justifica um profissional entregar um texto contendo duas variantes de um idioma sem ao menos se dar o trabalho de questionar ou informar o cliente sobre a situação.

Eu entendo que nenhum profissional quer ter o trabalho de retraduzir algo quando a TM deixa a desejar, e o cliente não paga a tarifa cheia. O problema poderia ter sido rapidamente solucionado com um e-mail ou papo no Skype, chutando a bola para o outro campo.

PM não é bicho nem inimigo do tradutor. A ideia é que esse profissional esteja disponível para solucionar problemas com o projeto. Não entendo como um tradutor detecta um problema assim e não comunica ao cliente. E o considero o caso muito pior se o tradutor nem tiver lido o texto. A impressão que me dá é que a tradutora em questão (1) nem leu o texto “cuspido” pela TM ou (2) leu e não estava nem aí para a qualidade nem a satisfação do cliente. Também desconfio que essa pessoa não faça uma leitura final do texto, que considero essencial. E é, ainda, um indício de que ela não usa corretor ortográfico.

E o lado bom de tudo isso?

Talvez a agência tenha aprendido uma lição, pois a PM comentou que deixou de contratar uma colega competentíssima para esse projeto porque “o orçamento do cliente final estava curto” para pagar a tarifa dela pela tradução.

Do meu lado, nem considero os trocados que ganhei a mais com a cirurgia plástica do Frankenstein (já que o cliente me paga por hora). Mas há um resultado óbvio da lei do mais forte ou, no caso, do mais competente. Enquanto esse profissional caiu no conceito da PM, que ficou muito decepcionada, eu fui considerada a salvadora da pátria: “Thank God you’re editing!” foram as palavras dela.

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Bianca Bold
é tradutora, intérprete, revisora, treinadora, legendadora, blogueira, mestranda, salseira/forrozeira/etc. e mãe da puggle mais linda do mundo. Se quiser mais informações, visite www.biancabold.com e www.translationclientzone.com.

Fusão confundida

Ana Iaria

Merger and Acquisition. O tradutor vê isto e não titubeia: Fusão e Aquisição. Mas como tudo em direito, não é o que parece.

Analisemos primeiro a definição de M&A dada pela Investopedia: “A general term used to refer to the consolidation of companies. A merger is a combination of two companies to form a new company, while an acquisition is the purchase of one company by another in which no new company is formed.”

http://www.investopedia.com/terms/m/mergersandacquisitions.asp

O Código Civil de 2002, artigo 1116 prescreve:

Art. 1.116. Na incorporação, uma ou várias sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações, devendo todas aprová-la, na forma estabelecida para os respectivos tipos.

Assim, se comparada com a definição da Investopedia, percebe-se que não se pode traduzir como fusão que, conforme o Código Civil, art. 1119, “A fusão determina a extinção das sociedades que se unem, para formar sociedade nova, que a elas sucederá nos direitos e obrigações.” Isto é o que em inglês se chama Consolidation.

Portanto, traduz-se como merger como incorporação. Uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, mas sua natureza jurídica permanece inalterada, cada uma com seus próprios direitos e obrigações.

Já na fusão (consolidation), ocorre a união de duas ou mais empresas extinguindo-se todas as pessoas jurídicas anteriores, dando lugar a uma nova pessoa jurídica. Esta assumirá todas as obrigações ativas e passivas das empresas fusionadas.

E a cisão? Uma empresa transfere toda ou somente uma parcela de seu patrimônio para um ou mais empresas, já existentes ou constituídas para tal fim. A empresa cindida em inglês será spin-off.

E ainda temos a transformação, que é a mudança de tipo de sociedade para outro. Por exemplo, a empresa deixa de ser limitada e passa ser anônima. Em inglês, conversion. Regida pelo artigo 1113 do Código Civil: “O ato de transformação independe de dissolução ou liquidação da sociedade, e obedecerá aos preceitos reguladores da constituição e inscrição próprios do tipo em que vai converter-se.”