Ética

Ernesta Ganzo

A Denise Bottmann e o Danilo Nogueira escreveram algumas ponderações bem interessantes, (a leitura vale a pena), sobre a recente entrevista que o dono da Record, sr. Sergio Machado, prestou ao jornal Estado de São Paulo. Uma entrevista cuja leitura é dolorida para quem enxerga o livro não como um produto, mas como um amigo, um conforto, uma luz na escuridão que pode nos iluminar, alegrar, comover. É ainda mais dolorida para quem, (como o próprio entrevistado explica: “Só tem um motivo para uma pessoa não vender uma coisa: foi você que fez ou você tem uma relação especial com aquilo. Eu não tenho.”), está vendendo algo seu, uma parte de si, algo com o qual teve uma relação especial. Quebrou o encanto. O encanto de imaginar o editor como alguém que com afinco e dedicação procura nos proporcionar boas leituras. O encanto para com o editor amante dos bons livros e da literatura, esfregando na nossa cara uma triste realidade: a do editor preocupado tão somente com o lucro, do editor comerciante, vendedor.

Eu particularmente fiquei com sentimentos ambíguos, pois ainda que por um lado entenda perfeitamente que na sociedade hodierna tudo é movido pelo lucro, todos afinal querem é ganhar e ninguém faz mais nada pelo amor à arte, ainda que eu entenda isso, continuo, por outro lado, a ser uma inguaribile romantica, que se emociona quando se vê perante as belas obras que espíritos sensíveis conseguem produzir. E não falo tão somente do deleite que sinto em ler passagens de obras literárias não, falo também de pinturas, de música, de teatro, tudo o que o ser humano, ser sensível e criativo, consegue produzir. Assim como me emociona também um lindo por do sol e o sorriso puro de uma criança, o apego do nosso cachorrinho ou o de um gatinho “facendo le fusa” (ronronando).

E continuo achando também que triste seria se tudo se reduzisse ao dinheiro.  Continuo perseguindo o belo, pois é o belo que me traz felicidade, serenidade, paz, alegria, e medo, arrepio, insegurança, maravilha, incredulidade. O belo que me faz sentir. E assim posso viver. Viver e não tão somente acordar, trabalhar, me alimentar… mas viver… viver sentindo, me emocionando, seja qual for a emoção.

É inegável, já disse, que em geral ninguém mais faz algo pela gloria. Pode até fazer por pouco, o bastante para se sustentar, porque todos precisamos comer, se vestir, etc. e tal. Tem os que ainda ‘trabalhem’ por amor ao que fazem, mas em geral eles também precisam comer e se sustentar e, não adianta, por mais idealista que o artista seja, tem uma hora que a barriga fala mais alto. Ou tem outro trabalho que sustente a si e a sua arte ou se profissionaliza e entra na roda dos que acabam aceitando “popularizar” (leia-se vender mais) sua própria arte para poder viver.

Onde quero chegar com essa lábia toda? Onde é que o tradutor entra nessa conversa? Pois bem. O tradutor é um ser diferente. Tem a sorte de fazer o que gosta. Acredito eu que muitos dos que entraram para o mundo tradutório, de uma forma ou de outra, (excluindo aqui os que pousam por breves períodos, fazendo um bico aqui e acolá, mas que inevitavelmente – inevitavelmente, porque tradução não é para todos – são atraídos, ao longo do tempo, por outros rumos), gostam do que fazem. Gostam de pesquisar, de ler, de escrever, gostam da sua própria língua e de um texto bem escrito. São ávidos por conhecimento e quanto mais assuntos vierem para traduzir melhor. Tradutor é um ser interessante e interessado, afinal.

E ele também “popularizou” sua arte, sua predisposição pela pesquisa, pela escrita, se profissionalizou e vende um produto, sua tradução. Vende palavras. Palavras de outros, é verdade, mas que são suas também. Palavras que foram interpretadas, pensadas, traduzidas e dispostas de forma a transmitir a mensagem de outro à sua maneira. Os literários, os tradutores literários digo, vão querer me linchar (peço desculpa, mas a minha intenção não é ferir a sensibilidade de ninguém, tão somente de abrir um debate), de tanto horror que devem sentir quando alguém os compara a “meros” vendedores de palavras. E entendo perfeitamente. Pois, por mais que eu acredite que eles também estejam vendendo palavras, como já disse, sou uma inguaribile romantica e continuo achando (sinceramente) que para traduzir uma obra autoral precisa de algo a mais, precisa de uma sensibilidade e uma interação com o autor original da obra (feita através de leituras e pesquisas), precisa de tempos um pouco mais longos para conseguir dar às frases aquela entonação, aquele sabor que tanto nos emociona. Por mais que eu acredite em tudo isso, pelo andar da carruagem, pelo sistema que precisa continuar vendendo novos títulos com prazos apertados, sei que os tradutores literários também acabam tendo que trabalhar sob pressão, respeitando prazos desumanos para traduzir obras que, por vezes, de literário tem pouco ou nada. É o sistema. E o tradutor literário é que não escapa do sistema, porque ele também precisa comer. Eu não estou aqui me referindo ao professor ou literato que traduz “pelo amor à arte” (se é que isso ainda existe) um livro a cada sei lá quanto tempo. Este deve ter outro trabalho que o sustente, já disse isso também. Estou me referindo aos que sustentam seus filhos, pagam suas contas e custeiam tudo com o fruto do seu trabalho de tradução.

Mas chega de enrolação e vamos ao que interessa. A ética.

É ético alguém emprestar seu nome, vender a sua imagem, para que um produto venda mais? É o que fazem, por exemplo, os jogadores de futebol nas propagandas de tênis, induzir o eventual comprador do produto a acreditar que o produto é bom. Afinal se X usa aquele tênis (ele é campeão, não é?) então deve ser bom. Seria como se ele fosse um garantidor das qualidades do produto. Todos sabem que celebridade que faz propaganda está ganhando um cachê para fazer/dizer algo que induza o consumidor a comprar. Todos sabem que aquilo não passa de uma propaganda, mas no fundo fica a imagem lá do jogador campeão com o tênis no pé fazendo um belo de um gol. Muitos, menos afortunados, acreditam naquilo como fosse a verdade, associando o tênis ao sucesso. Enfim… não estou dizendo nada novo: vender a própria imagem para garantir que algo é bom não é ilícito. E no caso do Nelson Rodrigues (já disse que eu sou uma romântica), na dúvida, que nunca poderá ser sanada pois ele não está mais aqui para se defender, prefiro acreditar que de alguma forma ele estivesse pelo menos controlando (leia-se revisando o português, a entonação das frases, o intercalar dos períodos, etc.) o que ele estava se responsabilizando a assinar. Pode ser que não, provavelmente não, quase certo que não, mas para mim sempre vale o in dúbio pro réu.

O que mais me incomoda não é ele ter assinado traduções que nunca fez (contanto que ele tenha pelo menos revisado, e quem sabe reescrito passagens para dar algo seu na tradução – eu sei, sou romântica, é que não gosto de ver destruídos meus ídolos), assim como não me incomoda alguém trabalhar para lucrar, inclusive os editores, apesar de eu continuar romantizando-os (meu pai afinal era um editor, de uma editora pequena, é verdade, mas pur sempre uma editora – e pai da gente sempre é super herói, não é? Com seus defeitos, seus erros, mas super herói).

O que me incomoda não é só a falsidade ideológica (que ocorre com o registro falso na Biblioteca Nacional), pois afinal quem sou eu para julgar o quanto alguém está necessitado a ponto de se sujeitar a prática tão humilhante. Nelson Rodrigues pode até ter assinado traduções de outro, mas, neste caso, enxergo um hipossuficiente (dois aliás, Nelson Rodrigues e o verdadeiro autor da tradução) que se sujeita pela necessidade.

A editora, lado forte da relação, é que estaria usando da arte da propaganda sem avisar que propaganda era, por isso enganosa. Quer usar o nome de alguém renomado para vender mais, que seja. Peça-lhes para escrever uma prefacio e estampa lá na primeira página o nome dele: “Com a prefacio de Fulaninho”.

O que mais me incomoda mesmo, o que realmente me doeu é o preconceito. É alguém pensar, e devem ser muitos os que o fazem, que para lucrar, para ser negociante, comerciante, vendedor, não precisa ser ético. É o associar aos negócios uma “ética” que seria própria do comercio. Uma ‘forma mentis’ que permite tudo e que ainda se regozija quando consegue ludibriar os outros, achando aquilo um sinal de sucesso, motivo de gloria. Isso não é coisa de comerciante não, não é sinônimo de negociantes, vendedores. Tem nada a ver com eles, conosco, que também somos vendedores, se de um produto ou de um serviço tanto faz, sempre vendedores. É de pessoas de ética duvidosa, e só.

P.S. Só lamento que estamos aqui comentando o caso, falando de quem não está mais aqui para se defender ou justificar (mas que mesmo assim dá IBOPE, afinal é Nelson Rodrigues, não é?), fazendo o jogo da editora. The only thing worse than being talked about is not being talked about.

 

P.S. Desculpem pelo tratado, escrevi à noite e as palavras rolavam soltas 🙂

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