Governo, o cliente que todos querem

Daniel Estill

“A prefeitura diz, por meio de nota, que jamais teve a intenção de contratar a ????? e que só o fez por decisão judicial. A empreiteira teria posto apenas quatro operários para varrer 15 km por mês. A prefeitura afirma que “sabia que os preços apresentados na proposta licitatória eram insuficientes para a quantidade de trabalho a ser realizado, o que demandaria, por parte da empresa, pedidos de reajustes do contrato — o que se efetivou e demonstrou má-fé por parte da ?????, que apresentou proposta com valores mais baixos com o único fim de garantir a primeira colocação para logo solicitar valores mais altos.”

O Globo, maio, 2012

Na semana passada, postaram uma mensagem num grupo de tradutores do Facebook em que o autor pedia currículos e cotações de tradutores para diversos pares de idiomas.
O que a princípio poderia parecer uma mensagem atraente, acabou virando objeto de críticas e questionamentos de vários outros participantes do grupo, predominantemente, gente com bastante experiência no mercado de tradução, que nada sabia sobre o solicitante.
O questionamento era fundamentalmente porque a pessoa não informava mais nada sobre o trabalho, não se apresentava e não aparecia em buscas pelo Google como alguém tradicionalmente ligado à profissão de tradutor.
Após muitas pedradas e críticas, o autor voltou e esclareceu. Resumidamente, disse que era de Brasília, que tinha como absorver grandes projetos e que aquele pedido era para atender a uma cotação de um órgão do governo, cujo prazo para apresentação era no início da tarde.
Ah, o governo. Cotações do governo são sempre para grandes projetos, pois as concorrências só são abertas a partir de um determinado valor. Projetos menores, de menor custo, não necessariamente precisam de concorrência pública e podem ser contratados no varejo, sem tomada prévia de preços. Quando muito, alguns órgãos exigem a apresentação de no mínimo três cotações, o que não necessarariamente configura uma concorrência de fato.
Portanto, concorrências para traduções governamentais, em geral, enchem os olhos. Sugerem valores milionários, trabalho para o resto da vida, volumes extraordinários que nos permitirão crescer, contratar, expandir. Mas há um detalhe, em geral são todas regidas pela regra do menor preço, as demais exigências vêm depois, como por exemplo comprovar a qualificação técnica para prestar o serviço.
Além disso, para prestar serviço para o governo, é preciso estar em dia com a Receita Federal e com a lei. É comum as concorrências exigirem uma série de certidões, algumas bem chatinhas de serem obtidas, por serem pagas e não estarem disponíveis pela Internet. É preciso estar em dia com o Sicaf, o Sistema de Cadastramento Unificado de Fornecedores do Executivo Federal, que por um lado facilita, mas que por outro, pode ser bem complicadinho se houver alguma pendência. Faz tempo que não me envolvo com esses processos de licitações,mas, no geral, é assim que coisa funciona. E, em geral, quem ganha concorrências é quem já sabe como o esquema funciona, mas não necessariamente sabe como tradução funciona.
Portanto, se você for mandar seu currículo para participar de um processo governamental de tomada de preço através de alguma empresa, esteja atento a uma série de problemas potenciais. É bastante comum, por exemplo, empresas que nada tem a ver com tradução, mas que já prestam serviços para o governo em outras áreas, se inscreverem nessas concorrências achando que é uma coisa muito simples e saírem pedindo currículos de tradutores a torto e a direito. O potencial de problemas de situações assim é muito grande, como se pode imaginar:
– Trabalhar muito para ganhar muito pouco (o menor preço, você já sabia disso).
– Ter que esperar tramitações burocráticas demoradas para receber, que podem resultar em grandes atrasos nos pagamentos.
– Lidar com intermediações de agentes que não necessariamente sabem com o que está lidando ao contratar tradutores.
– Esperar receber grandes volumes de trabalho que não se concretizam por inúmeras razões.
E o sempre presente imponderável, que em situações não muito claras, torna-se quase uma fatalidade.
Mas a coisa também pode dar certo. Pode ser que você tenha a boa sorte de participar de um projeto bacana, feito com transparência por gente de fato interessada num bom trabalho. Só que para isso acontecer, as coisas tem que começar bem desde o princípio e existem várias maneiras de você ter uma ideia de onde está se metendo antes de se ver preso contratualmente numa armadilha. E que fique bem claro, o problema não necessariamente é com o processo de licitação ou pelo fato de o cliente final ser uma organização governamental, e sim com quem nos envolvemos para participar de um processo desses, que a princípio, como o próprio nome diz, é para tornar o negócio o mais lícito possível.
Temos que nos informar sempre muito bem sobre nossos clientes antes de assumirmos compromissos, e isso vale para qualquer situação de trabalho, mas, no caso de concorrências públicas, o cuidado deve ser maior. Buscar saber bem quem é a pessoa ou empresa que está pedindo os currículos, verificar se as informações fornecidas são idôneas, procurar referências. Também é bom saber sobre o resto da equipe, os demais são tradutores profissionais também ou é gente que faz tradução como bico? Vão dar conta ou vai sobrar para alguém segurar pepinos por que os outros saíram fora? Além disso, em se tratando de participar de uma equipe para uma licitação, é importante  saber para que área, qual instituição, quais as reais condições da tomada de preços, até mesmo tentar ver algum material previamente. Os riscos podem ser bem altos e os ganhos bem poucos, é preciso estar atento e saber que isso é briga de cachorro grande, muito grande.
Num primeiro momento, o governo é aquele cliente que todos querem. Mas, após ganhar uma concorrência e depois de muitas dores de cabeça, pode se transformar naquele cliente que todos querem… à distância.

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3 comentários em “Governo, o cliente que todos querem

  1. Na minha encadernação passada como comerciante eu vi muitas, muitas empresas passarem por apuros para receber “do governo”. O prazo de pagamento costumava ser de 30 dias após a emissão da nota, mas não era raro o pagamento sair depois de seis meses (ou mais). Se a empresa não tivesse um bom fundo de caixa ficava em maus lençois com os fornecedores e, muitas vezes, até com os funcionários. Já fui o tal fornecedor que ficou sem receber mais de uma vez, então… sorry, tô fora de licitações desse tipo.

  2. Domingo mesmo (sim, domingo) eu respondi a mensagem de uma agência querendo que eu montasse uma cotação mostruosa de 16 itens para um órgão do Itamaraty, oferta licitada pela UNDP, agência que SEMPRE cota pelo menor preço (sim, no Brasil boa parte das agências da ONU continuam licitando pelo menor preço por que, bem,… quem deveria reclamar tá calado e não faz nada). Ah sim, entregar o orçamento até 11h de segunda (embora depois encontrei a tal licitação e o prazo era (não muito melhor) 17h de segunda.

    Então eu escrevi:
    “(…)
    Porém, o formato da demanda indica se tratar de licitação por menor preço, o que para mim representa uma grandíssima incongruência: querer contratar um serviço super especializado pelo menos preço possível – é zebra garantida. Meus serviços são extremamente qualificados, o que me vale o “privilégio” de nunca ganhar licitações em que vigora o menor preço. Nas últimas vezes que participei de pregão deste tipo, minha proposta só serviu para validar a proposta daqueles concorrentes que ofereceram preços tão baixos que chegaram a me dar vergonha alheia. Jurei não entrar mais nessa fria.
    (…)
    Quanto a mim, vou preferir passar e me poupar do esforço de montar um penoso orçamento que, de qualquer forma, não tem menor chance de ser aprovado e só servirá para confirmar os péssimos profissionais que a xxx contratará por menor preço (e qualquer qualidade). Não será a primeira vez.

    Atenciosamente,…”

    Pois na segunda mesmo, um conhecido meu que trabalha neste órgão me ligou contando que estava ordenando NÃO PAGAR uma tradução obtida por este tipo de licitação, onde o herói traduziu “coton” (em FR) por “lã”. Querem mais? A “Embrapa Coton” virou “Embrapa Lã”. E o Chade acabou povoado por ovelinhas e não é mais coberto por plantações de algodão.
    Gente, na boa: para saber que “coton” quer dizer algodão, acho que nem precisa ser tradutor, muito menos de francês. Mas se ainda assim não souber, basta entrar no site do centro Algodão da Embrapa.

    Moral da história: ok, negociar preços. Claro.
    Mas a política do menor preço está garantindo traduções desastrosas que deveriam encher de vergonha nosso orgulho de ser brasileiros.

    Abraços, Milani

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