O Livro Tem Dono!

Débora Isidoro

Pensando um pouco nas coisas que me perguntam pelo twitter e por aí, achei que seria legal contar um pouco sobre como é o processo de traduzir um livro que acaba atraindo mais atenção do público e da mídia. Vários colegas aqui têm experiências semelhantes, é claro, mas muita gente que lê o trabalho final acaba criando fantasias sobre o processo de tradução de uma obra como, sei lá, Harry Potter, ou A Saga Crepúsculo. Já vou logo avisando que não vou falar sobre nenhuma das duas séries, porque não as traduzi e não conheço as tradutoras. Na verdade, eu também queria saber como foi.

Traduzir um livro é, na minha opinião, tentar “receber o espírito” do autor, mesmo que ele ainda esteja vivo, e “psicografar” a mensagem que ele transmitiu no livro que escreveu. O que tem que mudar é o idioma. De resto, é nossa obrigação respeitar o original em conteúdo, estilo e essência. A obra continua tendo um proprietário, alguém que a criou, um pai ou uma mãe, mesmo que às vezes a gente a chame de “filhote” quando a vemos pronta em português.

Quando penso nas dificuldades que um tradutor literário encontra no exercício da profissão, a primeira coisa que me vem à cabeça é esse distanciamento, em como é difícil não se apoderar de um texto que é seu, porque você o está produzindo no seu idioma de chegada, mas não é seu, porque, na verdade, você o está conduzindo para outro idioma, não está criando nada. Essa dificuldade cresce exponencialmente quando é temperada pelo interesse da mídia e pela ansiedade do público. Não sei dizer exatamente quando me dei conta de que, apesar do nome na primeira página, às vezes até bem perto do nome do autor, eu era só mais uma cadeira na longa sequência de mesas e computadores da cadeia editorial. Confesso que ainda gosto de ouvir elogios e me envaideço com o resultado de um bom trabalho, mas dou o mesmo valor a todos os títulos, trato com a mesma seriedade um quase manual de cinquenta páginas e uma série que virou filme e continua sendo xodó dos leitores, porque, em última análise, aqui no meu escritório, todos entram pela porta da frente como visitas que são, e todos saem pela porta da frente para seguirem dois caminhos distintos, de volta para seus donos (os autores), e de ida para os leitores que precisam do nosso trabalho para poder ter acesso àquela obra.

Nenhum glamour. Só trabalho duro.

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