As ferramentas e os cursos

Daniel Estill

Há alguns anos, resolvemos oferecer um curso de Wordfast. Eu já era usuário fazia tempo, conhecia bem as manhas do programa, mas nunca tinha dado aula. Preparei os slides, a divulgação, marcamos a data e o curso bombou. Na época, tínhamos o escritório funcionando numa sala comercial, o que facilitou bastante. Foram algumas edições, com turmas de até 6 pessoas. Quase sempre enchia. Também dei aulas particulares, fui na casa de uns poucos alunos, alguns vieram na minha sala, ofereci aulas online. Sempre tem procura. Só que eu nunca assisti um curso de ferramenta de tradução na vida. Minto, assisti umas duas aulas de memoQ do Ricardo Souza na casa da Cláudia e do Roney Belhasof. Bem básicas, mas legais para pegar alguns macetes, embora eu já estivesse usando o programa há algum tempo. Na verdade, assisti as aulas do Ricardo com segundas intenções, queria ver como outras pessoas davam aulas também. Ele nunca soube disso e negarei minha verdadeira motivação até o fim! (Em tempo, ele é um ótimo professor)

Na verdade, sempre me perguntei por que as pessoas pagam para ter aula de ferramentas. Não tem manual? Não tem um monte de tutorial disponível na rede? No site do Wordfast, por exemplo, além dos manuais, tem tutorial em vídeo, apostila com exercício, knowledge base… Sem falar nas listas de discussão, onde a gente consegue tirar praticamente qualquer dúvida. Se eu aprendi desta forma, por que os outros não podem aprender também? Bom, tanto melhor que me paguem, mas fico sempre achando que poderiam guardar o dinheiro para outra coisa. Aliás, o Danilo Nogueira também fala mais ou menos isso. E acho que deve valer para a maioria do pessoal que dá aula de software em geral. Quando a gente aprende sozinho, acaba descobrindo muito mais coisa.

Bem, as respostas são muitas. Preguiça de ler o manual, dificuldade de uso do computador, oportunidade de interagir com outras pessoas. Já tive turmas em que acho que aprendi mais do que ensinei. Mas também já vi gente que queria aprender a usar um software e mal sabia navegar pelo Windows. Pessoas com muita dificuldade mesmo, que espero ter conseguido ajudar.

O problema principal, no entanto, é que muitas vezes as pessoas enfiam na cabeça que são mais burras do que realmente são (todos somos burros em alguma medida, não?). Daí a achar que não tem condição de aprender as coisas sozinhas é um passo. E então, o medo. Medo de fazer besteira, medo de travar o computador, medo. A tal da tecnofobia. Esse é o principal obstáculo. Se você fizer besteira tentando aprender a usar um software, tanto melhor. Dúvidas e problemas podem ser extremamente favoráveis ao aprendizado, não é mesmo? A gente faz a besteira, às vezes bem grande, perde arquivo, perde trabalho (quem nunca perdeu?), aí aprende primeiro que somos capazes de fazer grandes burradas e depois a consertá-las e então a não repeti-las. Foi assim que você aprendeu a andar, a escrever, a ler, a pedalar, a viver, enfim. Nossa, a gente aprende a fazer coisas muito mais difíceis na vida do que usar um programa de memória de tradução. É só uma questão de perder o medo de errar. Botar a mão na massa, tentar, fazer de novo, perguntar aos colegas. É possível e a gente aprende muito mais assim.

Claro que ser autodidata tem algumas desvantagens. Às vezes a gente leva horas para fazer algo que um professor nos ensina em segundos. As aulas podem ser uma maneira de se ganhar tempo, de fato, mas para realmente valer a pena, é legal chegar num curso de ferramentas pelo menos com a noção mais clara possível de quais são as nossas dúvidas e dificuldades. Ao menos sabendo do que se trata o programa, do que ele é capaz de fazer para nos ajudar. Instale uma demo, dê uma olhada no manual, dê uma boa olhada no site dos caras. Tente mexer um pouquinho no software. Não tenha medo, o planeta não entrará em colapso se você apertar um botão errado ou se apagar um arquivo por acidente. Se depois disso você ainda achar que precisa fazer um curso, certamente vai aproveitar muito mais do que se chegar lá sem ter a menor noção do que é aquilo, se só estiver lá por que seu cliente disse que você precisa aprender a usar esse o aquele software. O curso é para você, não para o seu cliente, muito menos para rechear o bolso do professor.

PS: Só não esqueça de fazer backup! (Você sabe fazer backup? Precisa de curso? ;))

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2 comentários em “As ferramentas e os cursos

  1. Daniel, eu fiz o curso de Wordfast com você e foi um dos melhores investimentos que fiz na vida. Tanto que, hoje, eu mesmo dou aulas de WF. Para mim, o curso foi isso, a oportunidade de aprender a usar o programa rapidamente, para depois, sozinho, descobrir o que mais ele poderia oferecer. Aprendi muito dando aulas e hoje conheço o WF muito melhor por conta disso. Nunca deixarei de reconhecer o valor de um bom curso, o que não pode mesmo – como você disse – é entrar no curso sem saber o que se quer aprender e para quê.
    Abraço!

  2. Muito bom, Daniel! Às vezes me pergunto a mesma coisa, sabia? Eu mesmo aprendi bastante coisa de computador sozinho, pesquisando, fuçando, errando, fazendo, desfazendo, me desesperando. Outras aprendi com o meu irmão (que também sempre foi bem curioso), mas sempre tento aprender assim, pelas próprias mãos, antes de procurar um curso ou algo do tipo, porque assim parece que a satisfação pelo resultado no final é bem maior.

    Um abraço!

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