Ética

Ernesta Ganzo

A Denise Bottmann e o Danilo Nogueira escreveram algumas ponderações bem interessantes, (a leitura vale a pena), sobre a recente entrevista que o dono da Record, sr. Sergio Machado, prestou ao jornal Estado de São Paulo. Uma entrevista cuja leitura é dolorida para quem enxerga o livro não como um produto, mas como um amigo, um conforto, uma luz na escuridão que pode nos iluminar, alegrar, comover. É ainda mais dolorida para quem, (como o próprio entrevistado explica: “Só tem um motivo para uma pessoa não vender uma coisa: foi você que fez ou você tem uma relação especial com aquilo. Eu não tenho.”), está vendendo algo seu, uma parte de si, algo com o qual teve uma relação especial. Quebrou o encanto. O encanto de imaginar o editor como alguém que com afinco e dedicação procura nos proporcionar boas leituras. O encanto para com o editor amante dos bons livros e da literatura, esfregando na nossa cara uma triste realidade: a do editor preocupado tão somente com o lucro, do editor comerciante, vendedor.

Eu particularmente fiquei com sentimentos ambíguos, pois ainda que por um lado entenda perfeitamente que na sociedade hodierna tudo é movido pelo lucro, todos afinal querem é ganhar e ninguém faz mais nada pelo amor à arte, ainda que eu entenda isso, continuo, por outro lado, a ser uma inguaribile romantica, que se emociona quando se vê perante as belas obras que espíritos sensíveis conseguem produzir. E não falo tão somente do deleite que sinto em ler passagens de obras literárias não, falo também de pinturas, de música, de teatro, tudo o que o ser humano, ser sensível e criativo, consegue produzir. Assim como me emociona também um lindo por do sol e o sorriso puro de uma criança, o apego do nosso cachorrinho ou o de um gatinho “facendo le fusa” (ronronando).

E continuo achando também que triste seria se tudo se reduzisse ao dinheiro.  Continuo perseguindo o belo, pois é o belo que me traz felicidade, serenidade, paz, alegria, e medo, arrepio, insegurança, maravilha, incredulidade. O belo que me faz sentir. E assim posso viver. Viver e não tão somente acordar, trabalhar, me alimentar… mas viver… viver sentindo, me emocionando, seja qual for a emoção.

É inegável, já disse, que em geral ninguém mais faz algo pela gloria. Pode até fazer por pouco, o bastante para se sustentar, porque todos precisamos comer, se vestir, etc. e tal. Tem os que ainda ‘trabalhem’ por amor ao que fazem, mas em geral eles também precisam comer e se sustentar e, não adianta, por mais idealista que o artista seja, tem uma hora que a barriga fala mais alto. Ou tem outro trabalho que sustente a si e a sua arte ou se profissionaliza e entra na roda dos que acabam aceitando “popularizar” (leia-se vender mais) sua própria arte para poder viver.

Onde quero chegar com essa lábia toda? Onde é que o tradutor entra nessa conversa? Pois bem. O tradutor é um ser diferente. Tem a sorte de fazer o que gosta. Acredito eu que muitos dos que entraram para o mundo tradutório, de uma forma ou de outra, (excluindo aqui os que pousam por breves períodos, fazendo um bico aqui e acolá, mas que inevitavelmente – inevitavelmente, porque tradução não é para todos – são atraídos, ao longo do tempo, por outros rumos), gostam do que fazem. Gostam de pesquisar, de ler, de escrever, gostam da sua própria língua e de um texto bem escrito. São ávidos por conhecimento e quanto mais assuntos vierem para traduzir melhor. Tradutor é um ser interessante e interessado, afinal.

E ele também “popularizou” sua arte, sua predisposição pela pesquisa, pela escrita, se profissionalizou e vende um produto, sua tradução. Vende palavras. Palavras de outros, é verdade, mas que são suas também. Palavras que foram interpretadas, pensadas, traduzidas e dispostas de forma a transmitir a mensagem de outro à sua maneira. Os literários, os tradutores literários digo, vão querer me linchar (peço desculpa, mas a minha intenção não é ferir a sensibilidade de ninguém, tão somente de abrir um debate), de tanto horror que devem sentir quando alguém os compara a “meros” vendedores de palavras. E entendo perfeitamente. Pois, por mais que eu acredite que eles também estejam vendendo palavras, como já disse, sou uma inguaribile romantica e continuo achando (sinceramente) que para traduzir uma obra autoral precisa de algo a mais, precisa de uma sensibilidade e uma interação com o autor original da obra (feita através de leituras e pesquisas), precisa de tempos um pouco mais longos para conseguir dar às frases aquela entonação, aquele sabor que tanto nos emociona. Por mais que eu acredite em tudo isso, pelo andar da carruagem, pelo sistema que precisa continuar vendendo novos títulos com prazos apertados, sei que os tradutores literários também acabam tendo que trabalhar sob pressão, respeitando prazos desumanos para traduzir obras que, por vezes, de literário tem pouco ou nada. É o sistema. E o tradutor literário é que não escapa do sistema, porque ele também precisa comer. Eu não estou aqui me referindo ao professor ou literato que traduz “pelo amor à arte” (se é que isso ainda existe) um livro a cada sei lá quanto tempo. Este deve ter outro trabalho que o sustente, já disse isso também. Estou me referindo aos que sustentam seus filhos, pagam suas contas e custeiam tudo com o fruto do seu trabalho de tradução.

Mas chega de enrolação e vamos ao que interessa. A ética.

É ético alguém emprestar seu nome, vender a sua imagem, para que um produto venda mais? É o que fazem, por exemplo, os jogadores de futebol nas propagandas de tênis, induzir o eventual comprador do produto a acreditar que o produto é bom. Afinal se X usa aquele tênis (ele é campeão, não é?) então deve ser bom. Seria como se ele fosse um garantidor das qualidades do produto. Todos sabem que celebridade que faz propaganda está ganhando um cachê para fazer/dizer algo que induza o consumidor a comprar. Todos sabem que aquilo não passa de uma propaganda, mas no fundo fica a imagem lá do jogador campeão com o tênis no pé fazendo um belo de um gol. Muitos, menos afortunados, acreditam naquilo como fosse a verdade, associando o tênis ao sucesso. Enfim… não estou dizendo nada novo: vender a própria imagem para garantir que algo é bom não é ilícito. E no caso do Nelson Rodrigues (já disse que eu sou uma romântica), na dúvida, que nunca poderá ser sanada pois ele não está mais aqui para se defender, prefiro acreditar que de alguma forma ele estivesse pelo menos controlando (leia-se revisando o português, a entonação das frases, o intercalar dos períodos, etc.) o que ele estava se responsabilizando a assinar. Pode ser que não, provavelmente não, quase certo que não, mas para mim sempre vale o in dúbio pro réu.

O que mais me incomoda não é ele ter assinado traduções que nunca fez (contanto que ele tenha pelo menos revisado, e quem sabe reescrito passagens para dar algo seu na tradução – eu sei, sou romântica, é que não gosto de ver destruídos meus ídolos), assim como não me incomoda alguém trabalhar para lucrar, inclusive os editores, apesar de eu continuar romantizando-os (meu pai afinal era um editor, de uma editora pequena, é verdade, mas pur sempre uma editora – e pai da gente sempre é super herói, não é? Com seus defeitos, seus erros, mas super herói).

O que me incomoda não é só a falsidade ideológica (que ocorre com o registro falso na Biblioteca Nacional), pois afinal quem sou eu para julgar o quanto alguém está necessitado a ponto de se sujeitar a prática tão humilhante. Nelson Rodrigues pode até ter assinado traduções de outro, mas, neste caso, enxergo um hipossuficiente (dois aliás, Nelson Rodrigues e o verdadeiro autor da tradução) que se sujeita pela necessidade.

A editora, lado forte da relação, é que estaria usando da arte da propaganda sem avisar que propaganda era, por isso enganosa. Quer usar o nome de alguém renomado para vender mais, que seja. Peça-lhes para escrever uma prefacio e estampa lá na primeira página o nome dele: “Com a prefacio de Fulaninho”.

O que mais me incomoda mesmo, o que realmente me doeu é o preconceito. É alguém pensar, e devem ser muitos os que o fazem, que para lucrar, para ser negociante, comerciante, vendedor, não precisa ser ético. É o associar aos negócios uma “ética” que seria própria do comercio. Uma ‘forma mentis’ que permite tudo e que ainda se regozija quando consegue ludibriar os outros, achando aquilo um sinal de sucesso, motivo de gloria. Isso não é coisa de comerciante não, não é sinônimo de negociantes, vendedores. Tem nada a ver com eles, conosco, que também somos vendedores, se de um produto ou de um serviço tanto faz, sempre vendedores. É de pessoas de ética duvidosa, e só.

P.S. Só lamento que estamos aqui comentando o caso, falando de quem não está mais aqui para se defender ou justificar (mas que mesmo assim dá IBOPE, afinal é Nelson Rodrigues, não é?), fazendo o jogo da editora. The only thing worse than being talked about is not being talked about.

 

P.S. Desculpem pelo tratado, escrevi à noite e as palavras rolavam soltas 🙂

Tradução da beleza

Érika Lessa

Meninas, vamos falar de coisa boa? Vamos falar de Iogurteira coisas que nos fazem sentir melhor?

Quem me conhece mais de perto sabe que adoro maquiagem. Curto muito. Não sou escrava — daquelas que não vão comprar pão sem rímel e batom — mas percebo que, em algumas circunstâncias, estar “ajeitadinha” facilita. Não importa se é alguma ocasião de trabalho, uma festa, ou mesmo pra levantar o moral que anda meio acabrunhado: olhar para o espelho e gostar do que vê é uma delícia.

A natureza essa bandida nem sempre é muito legal com a gente, mas é possível contornar muitos de seus lapsos com pincel, corretivo e pó.

Ainda não tinha postado aqui por querer ter aquela sacada, aquele tema tradutório “uau!”, mas sempre tem quem me peça pra falar sobre isso. Então, por que não?

Não sou especialista, nem tenho paciência para testar tudo o que sai por aí e me dispor a escrever resenhas etc. Nem tenho competência para tal. Mas tem muita gente boa por aí fazendo isso, e pretendo dar o pontapé inicial na “transformação” de quem insiste em dizer que tem “duas mãos esquerdas”, mostrando o que sei, o que funciona para mim e onde busco informações e novidades. Dá pano pra manga, gola e bainha, né?

Vamos lá:

1. Maquiagem é treino.

Quanto mais você fizer, melhor conhecerá seu rosto, seus traços, o que fica bom ou não em você. Portanto, mãos à obra! Mas não vamos deixar pra treinar no dia daquele casamento loosho, neam? Passa primeiro aquele lápis puxadinho pra ir ao barzinho com o namorado, testa aquela mistura de sombras no aniversário de seu colega trabalho… Porque, se não der certo, basta tirar e pronto! Com o tempo, rola mais segurança e ousadia 😀

2. Você não precisa de todas as cores e pincéis disponíveis.

Quem já visitou blog de maquiagem, ou sites de empresas de cosméticos sabe que é de ficar tonta com tantas possibilidades. Mas você não precisa de todas aquelas cores, nem de todos aqueles pincéis, nem das melhores (e mais caras) marcas. Vamos com calma. Não adianta ter as ferramentas top de linha, se não tiver técnica e traquejo (assim como não adianta ter MemoQ, computador de última geração, se você nunca traduziu uma linha ;)). Portanto, não se afobe em jogar fora aquele kit de maquiagem paraguaio: ele pode ser bem útil nessa fase de “testes”.

3. Informe-se.

Veja o que o povo está fazendo por aí. Confira as novidades do mercado. Assine  blogs legais. “Ah, não tenho tempo!”. Tente outra desculpa, porque as blogueiras testam, dão seu parecer e você já vai certeira no que quer/precisa. Ou seja, acaba ganhando tempo. Se o quesito tempo é para a leitura dos blogs: seus problemas acabaram! Eles são ótimas companhias para salas de espera, engarrafamentos e afins.

Esses são alguns dos que gosto e acompanho:

  • http://www.2beauty.com.br/blog/ – Blog da Marina Smith. A moça é divertida, bem consciente da questão preço/qualidade e seus tutoriais são muito bonitos. Outra coisa que gosto muito: posts patrocinados são poucos e ela sempre avisa quando são — o que garante a imparcialidade sobre a qualidade dos produtos que testa e diz gostar ou não.
  • http://www.beautyblog.com.br/ – Blog da minha amiga Andrea Deds (oi, Deds :P) com algumas outras meninas. Elas testam diversos produtos de beleza (esmaltes, sombras, protetores etc.).
  • http://vogue.globo.com/diadebeaute/ – Também está dentro da lista de blogs de beleza (falando sobre tudo relacionado ao tema).

E aí? Pronta para começar?

Governo, o cliente que todos querem

Daniel Estill

“A prefeitura diz, por meio de nota, que jamais teve a intenção de contratar a ????? e que só o fez por decisão judicial. A empreiteira teria posto apenas quatro operários para varrer 15 km por mês. A prefeitura afirma que “sabia que os preços apresentados na proposta licitatória eram insuficientes para a quantidade de trabalho a ser realizado, o que demandaria, por parte da empresa, pedidos de reajustes do contrato — o que se efetivou e demonstrou má-fé por parte da ?????, que apresentou proposta com valores mais baixos com o único fim de garantir a primeira colocação para logo solicitar valores mais altos.”

O Globo, maio, 2012

Na semana passada, postaram uma mensagem num grupo de tradutores do Facebook em que o autor pedia currículos e cotações de tradutores para diversos pares de idiomas.
O que a princípio poderia parecer uma mensagem atraente, acabou virando objeto de críticas e questionamentos de vários outros participantes do grupo, predominantemente, gente com bastante experiência no mercado de tradução, que nada sabia sobre o solicitante.
O questionamento era fundamentalmente porque a pessoa não informava mais nada sobre o trabalho, não se apresentava e não aparecia em buscas pelo Google como alguém tradicionalmente ligado à profissão de tradutor.
Após muitas pedradas e críticas, o autor voltou e esclareceu. Resumidamente, disse que era de Brasília, que tinha como absorver grandes projetos e que aquele pedido era para atender a uma cotação de um órgão do governo, cujo prazo para apresentação era no início da tarde.
Ah, o governo. Cotações do governo são sempre para grandes projetos, pois as concorrências só são abertas a partir de um determinado valor. Projetos menores, de menor custo, não necessariamente precisam de concorrência pública e podem ser contratados no varejo, sem tomada prévia de preços. Quando muito, alguns órgãos exigem a apresentação de no mínimo três cotações, o que não necessarariamente configura uma concorrência de fato.
Portanto, concorrências para traduções governamentais, em geral, enchem os olhos. Sugerem valores milionários, trabalho para o resto da vida, volumes extraordinários que nos permitirão crescer, contratar, expandir. Mas há um detalhe, em geral são todas regidas pela regra do menor preço, as demais exigências vêm depois, como por exemplo comprovar a qualificação técnica para prestar o serviço.
Além disso, para prestar serviço para o governo, é preciso estar em dia com a Receita Federal e com a lei. É comum as concorrências exigirem uma série de certidões, algumas bem chatinhas de serem obtidas, por serem pagas e não estarem disponíveis pela Internet. É preciso estar em dia com o Sicaf, o Sistema de Cadastramento Unificado de Fornecedores do Executivo Federal, que por um lado facilita, mas que por outro, pode ser bem complicadinho se houver alguma pendência. Faz tempo que não me envolvo com esses processos de licitações,mas, no geral, é assim que coisa funciona. E, em geral, quem ganha concorrências é quem já sabe como o esquema funciona, mas não necessariamente sabe como tradução funciona.
Portanto, se você for mandar seu currículo para participar de um processo governamental de tomada de preço através de alguma empresa, esteja atento a uma série de problemas potenciais. É bastante comum, por exemplo, empresas que nada tem a ver com tradução, mas que já prestam serviços para o governo em outras áreas, se inscreverem nessas concorrências achando que é uma coisa muito simples e saírem pedindo currículos de tradutores a torto e a direito. O potencial de problemas de situações assim é muito grande, como se pode imaginar:
– Trabalhar muito para ganhar muito pouco (o menor preço, você já sabia disso).
– Ter que esperar tramitações burocráticas demoradas para receber, que podem resultar em grandes atrasos nos pagamentos.
– Lidar com intermediações de agentes que não necessariamente sabem com o que está lidando ao contratar tradutores.
– Esperar receber grandes volumes de trabalho que não se concretizam por inúmeras razões.
E o sempre presente imponderável, que em situações não muito claras, torna-se quase uma fatalidade.
Mas a coisa também pode dar certo. Pode ser que você tenha a boa sorte de participar de um projeto bacana, feito com transparência por gente de fato interessada num bom trabalho. Só que para isso acontecer, as coisas tem que começar bem desde o princípio e existem várias maneiras de você ter uma ideia de onde está se metendo antes de se ver preso contratualmente numa armadilha. E que fique bem claro, o problema não necessariamente é com o processo de licitação ou pelo fato de o cliente final ser uma organização governamental, e sim com quem nos envolvemos para participar de um processo desses, que a princípio, como o próprio nome diz, é para tornar o negócio o mais lícito possível.
Temos que nos informar sempre muito bem sobre nossos clientes antes de assumirmos compromissos, e isso vale para qualquer situação de trabalho, mas, no caso de concorrências públicas, o cuidado deve ser maior. Buscar saber bem quem é a pessoa ou empresa que está pedindo os currículos, verificar se as informações fornecidas são idôneas, procurar referências. Também é bom saber sobre o resto da equipe, os demais são tradutores profissionais também ou é gente que faz tradução como bico? Vão dar conta ou vai sobrar para alguém segurar pepinos por que os outros saíram fora? Além disso, em se tratando de participar de uma equipe para uma licitação, é importante  saber para que área, qual instituição, quais as reais condições da tomada de preços, até mesmo tentar ver algum material previamente. Os riscos podem ser bem altos e os ganhos bem poucos, é preciso estar atento e saber que isso é briga de cachorro grande, muito grande.
Num primeiro momento, o governo é aquele cliente que todos querem. Mas, após ganhar uma concorrência e depois de muitas dores de cabeça, pode se transformar naquele cliente que todos querem… à distância.

O Livro Tem Dono!

Débora Isidoro

Pensando um pouco nas coisas que me perguntam pelo twitter e por aí, achei que seria legal contar um pouco sobre como é o processo de traduzir um livro que acaba atraindo mais atenção do público e da mídia. Vários colegas aqui têm experiências semelhantes, é claro, mas muita gente que lê o trabalho final acaba criando fantasias sobre o processo de tradução de uma obra como, sei lá, Harry Potter, ou A Saga Crepúsculo. Já vou logo avisando que não vou falar sobre nenhuma das duas séries, porque não as traduzi e não conheço as tradutoras. Na verdade, eu também queria saber como foi.

Traduzir um livro é, na minha opinião, tentar “receber o espírito” do autor, mesmo que ele ainda esteja vivo, e “psicografar” a mensagem que ele transmitiu no livro que escreveu. O que tem que mudar é o idioma. De resto, é nossa obrigação respeitar o original em conteúdo, estilo e essência. A obra continua tendo um proprietário, alguém que a criou, um pai ou uma mãe, mesmo que às vezes a gente a chame de “filhote” quando a vemos pronta em português.

Quando penso nas dificuldades que um tradutor literário encontra no exercício da profissão, a primeira coisa que me vem à cabeça é esse distanciamento, em como é difícil não se apoderar de um texto que é seu, porque você o está produzindo no seu idioma de chegada, mas não é seu, porque, na verdade, você o está conduzindo para outro idioma, não está criando nada. Essa dificuldade cresce exponencialmente quando é temperada pelo interesse da mídia e pela ansiedade do público. Não sei dizer exatamente quando me dei conta de que, apesar do nome na primeira página, às vezes até bem perto do nome do autor, eu era só mais uma cadeira na longa sequência de mesas e computadores da cadeia editorial. Confesso que ainda gosto de ouvir elogios e me envaideço com o resultado de um bom trabalho, mas dou o mesmo valor a todos os títulos, trato com a mesma seriedade um quase manual de cinquenta páginas e uma série que virou filme e continua sendo xodó dos leitores, porque, em última análise, aqui no meu escritório, todos entram pela porta da frente como visitas que são, e todos saem pela porta da frente para seguirem dois caminhos distintos, de volta para seus donos (os autores), e de ida para os leitores que precisam do nosso trabalho para poder ter acesso àquela obra.

Nenhum glamour. Só trabalho duro.

Interpretação 101

Adriana Machado

Acredito que o público do nosso blog é bem variado e quando pensei sobre o que escrever no meu primeiro post sobre interpretação decidi começar do começo mesmo, já que provavelmente temos leitores que não conhecem o bê-a-bá da interpretação ou têm apenas uma vaga ideia do que se trata.

Qual é a diferença entre tradução e interpretação?

A tradução se refere ao trabalho escrito. A interpretação é sua versão oral. 

Existem diferentes modalidades de interpretação?

As duas principais modalidades são: Simultânea e Consecutiva.

Simultânea – o intérprete fala ao mesmo tempo em que o orador. Esta é a modalidade normalmente usada em conferências, onde os intérpretes ficam em cabines a prova de som e usam um equipamento de som especial.

Consecutiva – o intérprete fala após o orador. Não há necessidade de equipamento. A interpretação consecutiva é muito mais demorada que a simultânea, uma vez que o orador e o intérprete falam alternadamente, o intérprete toma notas e o orador para em intervalos para que seja feita a interpretação.

Outras modalidades:

Intermitente – Feita frase a frase e geralmente utilizada em reuniões curtas.

Cochicho – Feita para poucas pessoas sem equipamentos de som para tradução simultânea.

Acompanhamento – Para turistas, técnicos ou profissionais estrangeiros em visitas a fábricas, escritórios ou instalações. Dependendo do número de participantes, fica mais confortável e menos intrusivo utilizar equipamento portátil de tradução simultânea, também conhecido como mini-equipo.

Por que intérpretes de conferência trabalham em equipe?

Nossa atividade é regulamentada por padrões internacionais, determinados após intenso trabalho de pesquisa. De acordo com esses padrões, os intérpretes sempre trabalham em dupla em qualquer evento que ultrapasse uma hora de duração em simultânea e duas horas de duração em consecutiva, alternando em intervalos de 20 a 30 minutos.

Como é cobrada a interpretação?

No Brasil, a APIC (Associação Profissional de Intérprete de Conferências) determinou que a jornada de interpretação é de seis horas. Isso varia de país para país, nos EUA a jornada é de oito horas. A cobrança é feita por diária de seis horas, para eventos de uma a seis horas de duração. A partir da sétima hora cobra-se hora extra, geralmente no valor de 25% do valor da diária, por hora.

Bem, foi uma pincelada bem por alto mesmo, caso haja interesse num post com uma análise de algum tópico em maior profundidade é só pedir nos comentários!!

Assumamos uma postura profissional e empresarial

           Ernesta Ganzo

Tradutor técnico autônomo não exerce somente uma atividade intelectual. Esta atividade já faz parte de algo mais complexo, que engloba a organização de seus fatores de produção. Ele assume os riscos de sua atividade, não choraminga porque é explorado, porque cliente paga pouco, porque os prazos são apertados. Não trabalha de graça, quem trabalha de graça é o amador. Ele firma contratos por livre e espontânea vontade e quem decide quanto vale seu trabalho é o próprio profissional. Por este motivo não aceita propostas  aviltantes. O profissional exerce uma atividade com fins de lucros, presentes ou futuros. E esta atividade compreende a atividade de tradução, a atividade de marketing pessoal para captação de clientes, atividade de aperfeiçoamento profissional, capacitação, profissionalização, atividade de gerenciamento da carteira de clientes, fluxo de caixa, planejamento financeiro etc.

Mas para o legislador brasileiro o tradutor técnico autônomo continua na impossibilidade de atuar como proto-empresário, não havendo como enquadrá-lo no Simples ou no MEI. Desta forma, também as sociedades de tradução não podem ser enquadradas no Simples. Podemos discordar, espernear, fazer o diabo a quatro, mas enquanto o legislador não muda de opinião, só nos resta debater a questão. Estudei o assunto ano passado, quando defendi minha monografia de direito, e ontem recebi a notícia de que a Revista Jus Navigandi aceitou e publicou  meu trabalho. Lá comento sobre as mudanças que ocorreram no mercado da tradução e no mundo do trabalho, em geral, chegando à conclusão da necessidade de inserir a atividade de tradução técnica no Simples e no MEI. Para quem quiser ler, está aqui.

Pela liberdade de escolha da ferramenta de trabalho

Pricila Reis Franz

Ainda hoje li uma dúvida de um tradutor no Facebook sobre qual ferramenta de auxílio à tradução (as famosas “CATs“) deveria comprar, visto que a maioria das agências exigia a ferramenta XXXXXX. Sei que algumas agências chegam a solicitar que o tradutor assine um termo declarando que só faz traduções através da ferramenta YYYYYY (felizmente não trabalho para nenhuma dessas).

Uni, duni, tê, a ferramenta escolhida foi você!

Uni, duni, tê, a ferramenta escolhida foi você!

A área da tradução é uma das poucas em que vejo o cliente exigindo que seu trabalho seja feito em determinada ferramenta. Já pensou chegar no consultório do dentista e perguntar que ferramentas ele usa? Ou ainda se negar a ser atendido porque ele não usa a ferramenta x ou y?

Aqui no meu “escritório” quem escolhe as minhas ferramentas sou EU. Por isso, o cliente pode mandar o arquivo com a extensão mais esdrúxula que for; meu primeiro passo é verificar se há alguma forma de traduzir no programa de minha preferência (atualmente é o memoQ). Isso não significa que essa seja sempre a opção mais fácil, pois implica em aprender a converter formatos de arquivos (e saber o que significa .ttx, .tmx, .pdf, .xml, .sdlxiff, .xlz, etc), e na maioria das vezes, descobrir o caminho das pedras sozinha.

Por exemplo, esses tempos caiu em minhas mãos arquivos com três formatos diferentes, cada um com seu programa próprio para tradução: um  .txml (do Wordfast Pro), outro .tpublic1900 (do Passolo – que extensão esquisitinha hein?!) e, por fim, .xlz (do Idiom WorldServer Workbench).

Uma rápida pesquisa no Google me ajudou e consegui traduzir os 3 tipos no memoQ. Entreguei os trabalhos e o cliente nem ficou sabendo que usei uma CAT diferente. Quando isso acontece, geralmente acabo fazendo um post sobre o  “passo-a-passo” no meu site para que outros colegas também tenham a liberdade de escolha.

Fica a dica: trabalhe com a ferramenta que você achar melhor. Mas depois de escolher, não se esqueça de estudar e pesquisar para aproveitá-la ao máximo!

As ferramentas e os cursos

Daniel Estill

Há alguns anos, resolvemos oferecer um curso de Wordfast. Eu já era usuário fazia tempo, conhecia bem as manhas do programa, mas nunca tinha dado aula. Preparei os slides, a divulgação, marcamos a data e o curso bombou. Na época, tínhamos o escritório funcionando numa sala comercial, o que facilitou bastante. Foram algumas edições, com turmas de até 6 pessoas. Quase sempre enchia. Também dei aulas particulares, fui na casa de uns poucos alunos, alguns vieram na minha sala, ofereci aulas online. Sempre tem procura. Só que eu nunca assisti um curso de ferramenta de tradução na vida. Minto, assisti umas duas aulas de memoQ do Ricardo Souza na casa da Cláudia e do Roney Belhasof. Bem básicas, mas legais para pegar alguns macetes, embora eu já estivesse usando o programa há algum tempo. Na verdade, assisti as aulas do Ricardo com segundas intenções, queria ver como outras pessoas davam aulas também. Ele nunca soube disso e negarei minha verdadeira motivação até o fim! (Em tempo, ele é um ótimo professor)

Na verdade, sempre me perguntei por que as pessoas pagam para ter aula de ferramentas. Não tem manual? Não tem um monte de tutorial disponível na rede? No site do Wordfast, por exemplo, além dos manuais, tem tutorial em vídeo, apostila com exercício, knowledge base… Sem falar nas listas de discussão, onde a gente consegue tirar praticamente qualquer dúvida. Se eu aprendi desta forma, por que os outros não podem aprender também? Bom, tanto melhor que me paguem, mas fico sempre achando que poderiam guardar o dinheiro para outra coisa. Aliás, o Danilo Nogueira também fala mais ou menos isso. E acho que deve valer para a maioria do pessoal que dá aula de software em geral. Quando a gente aprende sozinho, acaba descobrindo muito mais coisa.

Bem, as respostas são muitas. Preguiça de ler o manual, dificuldade de uso do computador, oportunidade de interagir com outras pessoas. Já tive turmas em que acho que aprendi mais do que ensinei. Mas também já vi gente que queria aprender a usar um software e mal sabia navegar pelo Windows. Pessoas com muita dificuldade mesmo, que espero ter conseguido ajudar.

O problema principal, no entanto, é que muitas vezes as pessoas enfiam na cabeça que são mais burras do que realmente são (todos somos burros em alguma medida, não?). Daí a achar que não tem condição de aprender as coisas sozinhas é um passo. E então, o medo. Medo de fazer besteira, medo de travar o computador, medo. A tal da tecnofobia. Esse é o principal obstáculo. Se você fizer besteira tentando aprender a usar um software, tanto melhor. Dúvidas e problemas podem ser extremamente favoráveis ao aprendizado, não é mesmo? A gente faz a besteira, às vezes bem grande, perde arquivo, perde trabalho (quem nunca perdeu?), aí aprende primeiro que somos capazes de fazer grandes burradas e depois a consertá-las e então a não repeti-las. Foi assim que você aprendeu a andar, a escrever, a ler, a pedalar, a viver, enfim. Nossa, a gente aprende a fazer coisas muito mais difíceis na vida do que usar um programa de memória de tradução. É só uma questão de perder o medo de errar. Botar a mão na massa, tentar, fazer de novo, perguntar aos colegas. É possível e a gente aprende muito mais assim.

Claro que ser autodidata tem algumas desvantagens. Às vezes a gente leva horas para fazer algo que um professor nos ensina em segundos. As aulas podem ser uma maneira de se ganhar tempo, de fato, mas para realmente valer a pena, é legal chegar num curso de ferramentas pelo menos com a noção mais clara possível de quais são as nossas dúvidas e dificuldades. Ao menos sabendo do que se trata o programa, do que ele é capaz de fazer para nos ajudar. Instale uma demo, dê uma olhada no manual, dê uma boa olhada no site dos caras. Tente mexer um pouquinho no software. Não tenha medo, o planeta não entrará em colapso se você apertar um botão errado ou se apagar um arquivo por acidente. Se depois disso você ainda achar que precisa fazer um curso, certamente vai aproveitar muito mais do que se chegar lá sem ter a menor noção do que é aquilo, se só estiver lá por que seu cliente disse que você precisa aprender a usar esse o aquele software. O curso é para você, não para o seu cliente, muito menos para rechear o bolso do professor.

PS: Só não esqueça de fazer backup! (Você sabe fazer backup? Precisa de curso? ;))

4 formas para usar o Dropbox

Val Ivonica

Você conhece o Dropbox?

É um sistema de backup e sincronização online de arquivos. Ao fazer o cadastro, você recebe 2 GB para armazenar seus arquivos, com a possibilidade aumentar esse espaço gratuitamente indicando o serviço para os amigos. Pode também assinar uma das versões pagas, que dão direito a 50 GB ou 100 GB.

Depois de sincronizar e configurar o aplicativo, todos as pastas e arquivos selecionados são sincronizados continuamente com o disco virtual. Qualquer alteração é imediatamente sincronizada com “a nuvem”. Você pode instalar o aplicativo em outros computadores (Windows, Mac ou Linux) para manter os arquivos sincronizados. É uma maneira prática de manter os arquivos do desktop e do laptop sincronizados, por exemplo. Pode também acessar os arquivos em celulares (iPhone, Android e Blackberry) e no iPad. Basta instalar o app correspondente.

Mas este é só o primeiro uso para o Dropbox. Você também pode:

  • Acessar versões mais antigas de arquivos. Muito, mas muito útil quando algum arquivo corrompe ou é apagado por engano. Acesse o site, localize a pasta e clique com o botão direito sobre o arquivo (ou mesmo pasta) desejado. Se o arquivo tiver sido excluído, use a opção Show deleted files, depois clique com o botão direito no arquivo desejado e selecione Restore. Para recuperar o arquivo corrompido, selecione Previous versions. Também é possível acessar as versões anteriores de um arquivo a partir do Finder (no Mac) ou do Windows Explorer (ver imagem abaixo).
  • Compartilhar pastas. Uso bastante para trocar arquivos com clientes e colegas durante projetos. Em vez do troca-troca de arquivos (às vezes pesados) por e-mail, coloco os arquivos na pasta compartilhada com o cliente/colega. Na mesma hora, o arquivo vai começar a ser transmitido para a nuvem e, de lá, para a pasta correspondente no computador do cliente.
  • Enviar arquivos individuais sem compartilhar pasta. O que fazer quando você precisa enviar um arquivo grande, que ultrapassa o limite para envio por e-mail? Pode enviar pelo YouSendIt, por exemplo, como já fiz muitas vezes. Mas agora também pode colocá-lo no Dropbox, depois clicar nele com o botão direito e selecionar Dropbox, depois Get Link. * A imagem acima é de um menu contextual do Mac. O do Windows é semelhante, mas o do Mac é mais bonitinho. 🙂

Também é possível obter o link para compartilhar o arquivo pelo site: O link será enviado para a área de transferência e pode ser colado (Control V) em qualquer tipo de mensagem. O destinatário só precisa clicar no link para fazer o download do arquivo.

Até semana passada, a única maneira de usar um link para download dessa forma era colocando o arquivo na pasta Public. Só que, em tese, os arquivos que estão nessa pasta são públicos. Qualquer pessoa com o link pode acessá-los. Isso está explícito no site do Dropbox:

Any file you want to share with the world should be kept in your Public folder. All files stored there have a public link and anyone who has that link can access your file from anywhere.

It is possible, however unlikely, that someone could guess your link if they knew the file name. It is also possible someone who has the link can share it with others or the link could appear on a search engine or other site. If you want to stop sharing a file publicly, all you need to do is move the file out of your Public folder. Once outside of the Public folder, any previous public links to the file will no longer work.

Assim, a alteração que fizeram semana passada, permitindo usar links para baixar arquivos de qualquer pasta do Dropbox, aumentou razoavelmente a segurança para esses arquivos (porque não precisam mais ficar na pasta pública enquanto aguardam download).

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