Tradutor também faz laboratório

Flávia Souto Maior

Quando recebi a primeira proposta para traduzir livros infanto-juvenis (young-adult literature – YA, ou crossover fiction), não sabia muito bem o que esperar. Na minha cabeça, as dificuldades não seriam grandes, o texto seria mais leve, mais “fácil”. Topei.

Mas não foi bem assim. Comecei a ler o original e logo me dei conta de que há tempos não tinha contato algum com adolescentes, nem o hábito de ler blogs ou publicações voltados para esse tipo de público. O que fazer com todas aquelas gírias? Se eu usasse as que conhecia, estaria entregando a idade.

Descobrir o que significavam não foi tão difícil, já que para traduzir temos que ser ótimos pesquisadores. Nesse caso específico, dicionários não ajudam muito. Mas o contexto aliado a leiturinhas aqui e ali já resolveriam o meu problema. No entanto, como diria aquilo em português? Se a personagem tem dezesseis anos, não pode falar como uma menina mulher de trinta.

Eu sempre tive mania de ficar escutando conversas alheias. Sei que não é muito educado, mas para mim é o modo mais rico de ter contato com registros linguísticos diferentes do meu em sua forma mais pura, sem interferências. Fico de ouvido ligado em restaurantes, filas, cafés. Uma vez, no ônibus, deixei de descer no meu ponto para saber se, afinal, a recepcionista de um hospital conseguiria convencer o namorado a deixá-la viajar sozinha com uma amiga do trabalho. Reparo em tudo, principalmente nas escolhas lexicais. Vou anotando na cabeça, às vezes em um caderninho.

Pois foi assim que resolvi fazer uma laboratório intensivo de bisbilhotamento de conversas de teens.  Em cafés e restaurantes, em vez de fugir daquela mesinha barulhenta como sempre costumava fazer, lá ia eu sentar bem perto. Fila de cinema, lá estava eu com meu saquinho de pipoca. Pensei em passar em uma escola no horário da saída dos alunos, mas achei que talvez os pais pudessem estranhar uma pessoa rondando seus filhos.

Também fiquei mais atenta à forma como os adolescentes se comunicavam por escrito. Aí foi a hora de correr para os blogs, Twitter e Facebook. Comecei a seguir primos, amigos de primos, filhos de amigos…

Em pouco tempo, construí meu repertório. Os diálogos dos livros, que antes pareciam tão travados em português, foram fluindo, ficando mais autênticos. Aparentemente, o resultado foi aprovado, pois continuo traduzindo livros desse gênero.

#Fik dik. Quando precisar traduzir um registro que não domina, em vez de apelar para #G-zuiz e gritar #oremos, basta prestar mais atenção à sua volta.

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6 comentários em “Tradutor também faz laboratório

  1. Eu acho este um dos ramos mais difíceis de traduzir, Flavinha. Eu moro fora do Brasil e para mim é importante manter contato com a língua para não perder nem o traquejo nem a fluência, pois ela é meu instrumento de trabalho. Meu laboratório é o FB, twitter (as mídias sociais que muitos esnobam), sites, blogs. Tradutor que para no tempo e no espaço e acha tudo logo logo se vê em palpos de aranha (entreguei a idade)

  2. Também achei ótimo esse compartilhamento da sua experiência. E serve também como dica aos colegas, além de profissionalizar a bisbilhotice!

  3. Muito bom, Flávia! Eu só acrescentaria ler os livros traduzidos pelos(as) amigos(as) tradutores(as)! Estou ingressando no ramo infanto-juvenil e tenho aprendido muito (e me divertido um bocado) com o produto do trabalho de vocês!

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