O outro na tradução

Petê Rissatti

Tenho pensado muito na tradução e no fazer tradutório de forma geral e tenho me deparado com questões bastante inquietantes, mais do ponto de vista pessoal do que profissional ou acadêmico, confesso, mas que acredito ser importante dividir aqui, pois talvez esse seja uma assunto bom para se pensar. Estive matutando em como os tradutores se encaram, ou melhor, como não se põem no lugar do outro colega de profissão. Ouço diversos ecoares em direções distintas, porém saindo de bocas que deveriam ou poderiam ser a mesma. Sim, estou falando de dois blocos de profissionais que parecem estanques, mas não são, apesar dos esforços: o bloco dos tradutores técnicos e o bloco dos tradutores literários. Claro, isso existe em todas as profissões, mas sinto que na tradução (talvez por estar mais próximo, dentro do redemoinho) a coisa beire o preconceito velado. Até porque são dois mundos completamente distintos, esse da tradução técnica e o pragmatismo feroz e o lema time is money levado às útlimas consequências e o outro (mas o mesmo) da tradução editorial (englobando praticamente todas as  literaturas), no qual um pseudo-status concorre com o lado business do ofício. E no meio disso voam farpas e discussões acaloradas: quem ganha mais, quem faz mais, quem ganha menos?

Dificilmente chegaremos a um consenso. Talvez por ser uma questão de gosto, por um lado, de aptidão por outro. Há muitos anos se dizia (e em muitos casos isso ainda é verdade) que a tradução literária paga uma miséria e, veja bem, tradutor é aquele que vive de tradução. Então, nem todo o amor do mundo pela arte encheria a barriga do tradutor e dos seus, de modo que ele precisaria procurar algo mais rentável. Esse algo seria a tradução técnica (e isso engloba todas as traduções que tenham uma área de especialidade em setores econômicos definidos), à qual se dedica a maioria dos meus colegas. Porém essa verdade hoje está algo difusa, visto que já soube de (e já prestei) serviços de tradução editorial que, se não ultrapassavam, se equiparavam ao que as agências de tradução têm pagado por essas bandas. Não digo os preços vergonhosos praticados por algumas, mas preços bastante razoáveis.

Então assim seguimos: de um lado alguns tradutores literários recebendo loas (sem as merecer às vezes) em revistas e na mídia e os tradutores técnicos, que são a maioria, sem reconhecimento algum (porém [ou talvez] melhor remunerados). Há o valor da arte, óbvio, incomensurável, mas ninguém pensa que no manual do secador de cabelo ou do micro-ondas houve trabalho e suor de tradutor e ninguém se dá ao trabalho de lembrar que ali também agiram as mãos de um profissional (que deveria ao menos ser) capacitado. E quando algo dá errado, de certo a culpa é do tradutor. Não entrarei nesse mérito, pois é outra história e outra briga que posso comprar aqui, quase de graça.

Para desempatar e fechar o texto (e nunca o assunto), talvez falte muita coisa para que esses gêmeos siameses parem de brigar: humildade e respeito. O tempo não dá apenas rugas e dores, mas sabedoria para reconhecer que quem está começando precisa de apoio, e não de porrada. Que não é pelo fulano fazer apenas best-seller que é uma besta célere ou a sicrana se dedica exclusivamente a manuais de informática que lhe falte tato (ou talento) para traduzir alta literatura. Muitas vezes é falta de oportunidade, as panelas são pequenas para vontades tão grandes. Então, tradutores, pensem que aquele a quem você ataca pode ser o que lhe dará a mão ali na frente. E o que você tanto louva pode não ser tão bom quanto parece, mas vende bem o seu peixe e consegue façanhas inimagináveis. O mundo gira, a Lusitana roda e o que importa é valorizar o próprio trabalho e ter prazer naquilo que faz. O que vem depois? Consequências e resultados.

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